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USTR propõe tarifa sobre carne brasileira citando trabalho forçado

Protecionismo e vulnerabilidade real coexistem no mesmo relatório

USTR propõe tarifa sobre carne brasileira citando trabalho forçado
Foto: Reprodução / Vero Notícias

Segundo a Vero Notícias, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) apresentou ao Congresso americano relatório que propõe tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, citando o aumento das exportações de carne bovina para a China como exemplo de concorrência desleal. O documento associa a cadeia produtiva brasileira a riscos de trabalho forçado, embora reconheça dificuldades de rastreamento.

O timing não é aleatório. A proposta surge dias após a China reconhecer o Brasil como país livre de febre aftosa, movimento que deve ampliar ainda mais as exportações brasileiras de carne in natura. O próprio USTR admite que o volume vendido ao mercado chinês foi impulsionado por tarifas chinesas contra produtos agrícolas americanos. A leitura dominante no Brasil é imediata: o relatório é instrumento de protecionismo comercial disfarçado de defesa de direitos humanos. E há lastro para isso — os EUA já usaram barreiras sanitárias e trabalhistas em disputas anteriores.

O argumento protecionista, no entanto, depende de uma premissa silenciosa: que a denúncia de trabalho forçado é infundada ou exagerada. Entre 2020 e 2024, o Ministério do Trabalho resgatou mais de 2 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão em frigoríficos e fazendas de pecuária. A pecuária figura consistentemente entre os setores com maior número de autuações. A dificuldade de rastreamento mencionada pelo próprio USTR não é retórica: a cadeia da carne brasileira é longa, com múltiplos intermediários entre o pasto e o freezer.

A questão deixa de ser se o relatório é protecionista — é. A questão é se o Brasil tem um sistema de rastreamento trabalhista robusto para responder à denúncia. O custo de não ter: se a pressão americana criar precedente, a China, maior compradora, pode começar a exigir o mesmo tipo de auditoria.