Senado bate recorde de trocas partidárias e acelera reorganização para 2026
86 mudanças desde 2019 não revelam crise. Revelam que ficou barato trocar de time.
Redação KADDABRA ·
Segundo levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da UnB, o Senado registrou 86 trocas partidárias entre fevereiro de 2019 e abril de 2026 — o maior número desde o início da série histórica, em 1991. Desse total, 37 ocorreram apenas na atual legislatura, com aceleração puxada pela proximidade das eleições de 2026 e pela disputa entre o grupo de Flávio Bolsonaro e o governo Lula por influência na Casa.
O gráfico não mostra crise institucional. Mostra quando ficou barato mudar de time. Entre 2011 e 2015, oito trocas; entre 2015 e 2019, 35. A diferença do período atual não é apenas de volume — é de contexto. Senadores têm mandato de oito anos e são eleitos pelo sistema majoritário: trocar de partido não queima o mandato. Enquanto isso, o calendário eleitoral criou urgência. Não se movem por ideologia, mas por estrutura — recursos, palanque, tempo de propaganda. Flávio Bolsonaro passou por PSL, Republicanos e Patriota antes de chegar ao PL. Carlos Viana (PSD-MG) saiu por seis siglas em um mandato. O que parece caótico é, na prática, reorganização concentrada: senadores estão se posicionando em bloco com poder de veto, não em bloco com promessa.
O governo Lula sofreu três derrotas emblemáticas no Senado — rejeição de Jorge Messias ao STF, derrubada de veto sobre atos golpistas, rejeição de Igor Roque à DPU. Juntas, revelam a mesma coisa: Lula não tem garantidor na Casa. E sem garantidor, votação importante não passa. Há quem leia o recorde como excepcional e indicação de crise. O argumento depende da premissa de que a migração atual é estrutural, não conjuntural. Mas o pico coincide com dois ciclos eleitorais acumulados, a fragmentação partidária ampliou a oferta de legendas e muitas trocas beneficiam o centrão — não necessariamente a oposição bolsonarista. A série histórica começa em 1991; o Brasil já teve regimes partidários muito mais instáveis. A pergunta não é se o sistema está em colapso. É se o novo normal é este — e se, quando a âncora chegar em outubro de 2026, o Senado travará em nova configuração ou continuará se reorganizando.