Senado analisa projeto que destina R$ 180 bi do pré-sal a dívidas rurais
Fundo Social como âncora de renegociação. Custo que não some, só se adia.
Redação KADDABRA ·
Segundo o Vero Notícias, o Senado deve votar nesta quarta-feira (10) o projeto de lei que autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para renegociar até R$ 180 bilhões em dívidas de produtores rurais afetados por eventos climáticos extremos. A proposta, já aprovada na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) sob relatoria de Renan Calheiros (MDB-AL), tramita em regime de urgência.
O arranjo tem engenharia clara. A CAE aprovou, a bancada ruralista oferece votos, e o timing é estratégico: meio do ano legislativo, quando a pressão por recursos agrícolas cresce e o radar fiscal focado em outras batalhas. Mas a questão não é se o produtor merece alívio. É quem paga a conta e como. O Fundo Social foi criado pela lei 12.351/2010 para financiar educação, saúde e combate à pobreza. Desviá-lo para o agro — setor que respondeu por 24% do PIB em 2023 — depende de uma premissa: que o impacto fiscal pode ser administrado sem comprometer a função original do caixa. O histórico sugere o contrário. Em 2017, parte do fundo foi desvinculada para dívidas de estados; em 2019, para o déficit da Previdência. A primeira porteira aberta raramente é a última.
Há uma terceira possibilidade: governo cede, o fundo absorve volume menor, e o resto vai para operação de crédito com subsídio embutido no Banco do Brasil. Menos visível, mesmo custo fiscal. O que o Senado decide esta semana não é apenas se renegocia dívidas — é se cria o precedente de que desastres climáticos são cobertos por receitas do pré-sal, e não por seguro rural ou política agrícola estruturada. O custo não desaparece. Apenas se adia.