Procissão ao Pai Bará ocupa Mercado de Pelotas pelo 11º ano
Resistência religiosa ou conquista de um território que sempre teve dono?
Conforme apurou o Brasil de Fato, a 11ª Procissão ao Pai Bará do Mercado Central ocorre no sábado, 13 de junho, em Pelotas (RS). O evento, com concentração no calçadão da rua Andrade Neves, é amparado pela Lei Municipal nº 7.025/2022, que instituiu o Dia do Orixá Bará. Idealizada pelo babalorixá Juliano de Oxum, a procissão começou em 2015, após um incêndio no mercado, como forma de reativar a força simbólica do local.
A leitura dominante é de vitória da resistência sobre a intolerância. A lei existe, a procissão ocorre, a ancestralidade é afirmada. O ângulo é justo. Mas ele depende de uma premissa: a de que o Mercado Central é um espaço neutro em disputa, onde grupos religiosos concorrem em igualdade. O próprio Pai Juliano relata que a primeira edição usou um andor de Santo Antônio, reconhecendo o sincretismo como estratégia de entrada. Isso não é apenas resistência — é uma tática de ocupação que joga com a dominância simbólica do catolicismo. Reclamações de permissionários contra pipoca e moedas podem ser racismo religioso, mas também podem indicar que o espaço tem limites de uso não negociados com todos os ocupantes. Em Salvador, a conquista do Pelourinho pelo candomblé nos anos 1980 veio acompanhada de turistificação e deslocamento de moradores. Em Pelotas, a consolidação da procissão como evento oficial pode ampliar o conflito ou absorvê-lo.
A variável crítica não é a fé. É o desenho da ocupação — e como ele será regulado quando o próximo grupo quiser seu dia no calendário.