Peça sobre João Cândido reacende disputa entre Marinha e memória da Revolta da Chibata
Teatro, condenação e carta da Marinha: a memória de 1910 ainda é campo de batalha institucional.
Em 23 de maio, o teatro do Sesc Newton Rossi, em Ceilândia (DF), recebeu a peça 'O Almirante Negro', sobre João Cândido, líder da Revolta da Chibata de 1910. Segundo o Brasil de Fato, a montagem ocorre em meio a uma disputa que não é apenas simbólica: a Marinha se opõe à inclusão de Cândido no Panteão dos Heróis, enquanto a Justiça Federal do Rio condenou a instituição por racismo institucional.
A revolta de novembro de 1910 teve motivação operacional — castigos físicos, más condições de alojamento e soldos baixos. O movimento acabou com anistia prometida e não cumprida, seguida de perseguição e mortes. Em 2024, o então comandante da Marinha, almirante Olsen, enviou carta à Câmara contestando a inclusão de Cândido no Livro dos Heróis, argumentando que seria transmitir a mensagem de que é lícito recorrer às armas para reivindicar direitos. Dias antes da peça, a Justiça Federal do Rio condenou a Marinha a pagar R$ 200 mil por danos morais difusos, reconhecendo racismo institucional nas declarações contra a memória do líder. O valor deve custear projetos de preservação.
Não se trata de herói ou vilão. Trata-se de função: um movimento que denunciou um sistema de castigo e foi tratado como motim. A história mostra que muitas memórias foram assim — disputadas, institucionais e lentas.