Palácio Tiradentes: cem anos de história, mas que Alerj o habita hoje?
Celebração do passado evita o desconforto do presente — e o custo da casa segue em aberto.
O Palácio Tiradentes completa cem anos desde o início de sua construção, em 1922. Em artigo no site Coisas da Política, o diretor-geral da Alerj, Luciano Abreu, descreve a gestão do edifício como "uma das maiores honras" de sua trajetória pública. O texto percorre as camadas históricas do terreno: originalmente a Cadeia Velha, onde Tiradentes ficou preso; depois, sede do Parlamento imperial; e, desde 1975, da Assembleia fluminense. A descrição arquitetônica é precisa, e a reverência ao centenário é legítima. Nenhum observador sério negaria o valor do edifício ou o esforço de preservação.
O problema é que o texto trata o parlamento fluminense como se fosse apenas um monumento. O argumento implícito é: se o prédio é grandioso, a instituição também o é. Mas há uma lacuna entre o mármore e a entrega. A pergunta que a nota não faz é: que Alerj habita este palácio hoje? Em 2023, a casa gastou mais de R$ 1,2 bilhão — orçamento superior ao de muitas prefeituras do estado —, com um dos maiores custos por deputado do país. A eficiência legislativa, no entanto, não está no mesmo patamar. A transferência dos gabinetes para o Edifício Lúcio Costa, em 2021, vendeu-se como solução para devolver ao Tiradentes sua vocação cerimonial. Na prática, isolou o plenário do contato direto com a população.
Não se trata de desmerecer a história. Trata-se de separar a arquitetura da gestão. A celebração do centenário pode ser um convite à reflexão sobre o que a Alerj quer ser nos próximos 100 anos. Se a resposta for apenas preservar o que já existe, o risco é transformar o templo da democracia em um museu de si mesmo. O valor do passado é inegável. O valor do presente ainda está em aberto.