Nova tarifa dos EUA ao Brasil é contraditória e politicamente útil, diz ex-secretário
Medida não mira equilíbrio. Mira setores onde Washington quer entrar.
A nova proposta de tarifa de 25% dos Estados Unidos aos produtos brasileiros é contraditória e politicamente útil ao governo de Donald Trump, afirma o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral em entrevista ao Poder360. Segundo Barral, a medida integra estratégia para pressionar o Brasil a abrir setores de interesse norte-americano. O relatório do USTR, divulgado nesta semana, muda o foco em relação à investigação de julho de 2025 — antes protecionismo e superávit, agora trabalho forçado, Pix e desmatamento.
A leitura dominante acerta: a tarifa é seletiva e deixa de fora produtos estratégicos como carnes e café. Dados do Poder360 mostram que o Brasil não taxa nenhum dos 10 principais produtos americanos importados. O argumento, no entanto, depende de uma premissa — que tarifa nominal é sinônimo de abertura comercial. O Brasil é um dos países mais fechados do mundo quando se medem barreiras regulatórias, conteúdo local e compras governamentais. O Índice da OCDE coloca o país entre os mais restritivos do G20. O debate brasileiro desvia o foco das próprias distorções que fragilizam sua posição negociadora.
A tarifa não é um ataque generalizado — é calibragem cirúrgica. Deixa de fora justamente os setores onde o Brasil é competitivo e onde as barreiras americanas são historicamente altas, como aço. Porque não mira equilíbrio comercial. Mira setores onde os EUA querem entrar. O custo para o Brasil é baixo agora. O precedente mostra que ele cresce quando a pressão se desloca das tarifas para as regras.