Ministro do STJ recebe R$ 141 mil e defende salário maior
Fala em Lisboa não é reclamação. É teste de resistência da magistratura ao novo teto do STF.
O corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell (STJ), recebeu R$ 141.116,81 líquidos em abril, valor que supera o teto constitucional de R$ 46.366,80, segundo dados do Portal da Transparência obtidos pelo site Agenda do Poder. Em declaração durante o Fórum de Lisboa, afirmou que a remuneração é baixa diante de sua carga de trabalho — e citou 130 mil processos julgados na carreira.
Não é sobre os R$ 141 mil. É sobre o timing. Em março, o STF apertou as regras: limite de 70% do teto para vantagens adicionais, fiscalização pelo CNJ, vigência em abril. A fala de Campbell em evento internacional amplifica o sinal de que a magistratura absorveu a decisão, mas não a aceitou. O argumento depende de uma premissa — a de que 130 mil processos por juiz é um feito individual, e não o sintoma de um sistema disfuncional que concentra em vez de distribuir. O salário alto é consequência, não causa.
A pergunta que a indignação imediata não captura é estrutural: se o Judiciário depende de penduricalhos para reter juízes, o teto não foi desenhado para absorver o custo real da função. A diferença entre a remuneração de Campbell (R$ 1,69 milhão anual) e o salário de um juiz da Suprema Corte dos EUA (US$ 298 mil) é pequena. A diferença real está na arquitetura: lá, 130 mil processos não empilham num único magistrado. A próxima rodada não é sobre quem tem razão. É sobre quantos pedidos de exoneração virão nos próximos 12 meses. Esse número dirá mais do que qualquer declaração em Lisboa.