📨 Em breve: a newsletter semanal do kdb
kdbnoticias

Mauro Vieira: tarifas dos EUA ignoram argumentos brasileiros

Brasil negoceia dentro de prazo. EUA negoceiam dentro de arquitetura legal.

Mauro Vieira: tarifas dos EUA ignoram argumentos brasileiros
Foto: Reprodução / InfoMoney Política

Segundo o Estadão, o chanceler Mauro Vieira afirmou nesta quinta-feira (4) que as recomendações de novas tarifas dos EUA contra o Brasil ignoram os argumentos e a realidade do país. A declaração foi feita de Paris, após breve encontro com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer. As tarifas foram anunciadas dentro do prazo de 30 dias acordado entre os presidentes Lula e Trump.

O movimento real começou antes da sexta-feira. Trump precisava de veículo legal para contornar a Suprema Corte americana. Encontrou em dois processos da Seção 301 um base para restaurar o tarifaço derrubado — um sobre práticas comerciais, outro sobre trabalho escravo na pecuária. A engenharia é limpa: acusa o Brasil, recomenda tarifas, Trump assina. O anúncio dentro do prazo não é erro de calendário. É fricção intencional. Sinaliza: vocês têm 30 dias para negociar, mas o relógio não é linear.

Vieira capturou bem o problema. Disse que os EUA 'não levaram em conta argumentos e realidade'. Tradução: apresentamos dados (desmatamento caiu 50%, Pix é inovação), recebemos lista de acusações. O jogo não era sobre fatos. Era sobre ocupação de espaço comercial. O segundo processo — trabalho escravo — é particularmente radioativo: acusa o Brasil de dar vantagem competitiva à pecuária por não combater crime que o próprio governo brasileiro reconhece, mas cuja fiscalização cobre menos de 3% dos produtores. Há, no entanto, uma assimetria que o discurso de injustiça ignora: o Brasil usa a mesma Seção 301 contra Canadá e Indonésia. Quando é o lado tarifador, não há discurso de vitimização.

Vieira ouviu de Greer que ainda há espaço para negociação. Tradução: a negociação agora tem custo — ceder em pauta, não em tarifa. A questão deixa de ser se as tarifas são justas. Passa a ser se o Brasil vai usar com os EUA o mesmo padrão de exigência que usa com países onde é o lado tarifador.