Mauro Vieira critica tarifaço dos EUA e pede diálogo
O Brasil surpreso com tarifas que o USTR documentou faz meses.
Segundo o Vero Notícias, o chanceler Mauro Vieira criticou nesta quinta-feira a proposta de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Vieira afirmou que os EUA ignoraram os argumentos apresentados pelo Brasil nas investigações comerciais que embasaram a medida — e que o anúncio ocorreu antes do prazo acordado entre Lula e Donald Trump para negociações diretas.
O chanceler tem um ponto factual. Mas o diagnóstico de que Washington "ignorou" argumentos brasileiros precisa de mais camadas. A premissa do Itamaraty é que avanços como o combate ao desmatamento bastariam para desarmar pressões. O governo americano, no entanto, deixou claro desde o início do Trump II que sua pauta é regida por reciprocidade tarifária e acesso a mercado — barreiras a produtos industriais, conteúdo local em tecnologia e subsídios agrícolas. O desempenho ambiental jamais foi o eixo central. Esperar que bastasse era otimismo estratégico. Há precedente: em 2019, mesmo com alinhamento político excelente, os EUA impuseram tarifas sobre aço brasileiro. O padrão é consistente — Trump impõe, depois negocia. O que muda é o timing da reação. O relatório do USTR de março de 2025 já apontava pendências brasileiras em licitações de TI, tributação diferenciada e restrições ao etanol americano. O desconforto é legítimo, mas a narrativa de surpresa enfraquece diante do histórico.
Vieira defendeu a retomada do diálogo. A pergunta que sua fala não responde: o que o Brasil está disposto a ceder em troca da suspensão das tarifas? Se a resposta for "nada, porque agimos corretamente", a negociação terá dificuldade de avançar. Se houver margem, o discurso público fecha uma porta que a diplomacia precisará reabrir em silêncio.