Hugo Motta repete 'escola Lira' e faz Câmara custear metade do aluguel de carros dos deputados
Medida libera cotão. E cria débito pessoal com a presidência.
Segundo o PlatôBR, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), determinou que a Casa passe a arcar com 50% dos gastos dos deputados com aluguel de veículos. A outra metade seguirá sendo paga pela cota parlamentar individual — o chamado cotão. A decisão, comunicada sem alarde, não exige aprovação do plenário.
A medida não é sobre carros. É sobre fluxo de poder. Um deputado que gasta R$ 4 mil por mês em aluguel recupera R$ 2 mil mensais de sua cota para campanha, assessoria ou comunicação. O dinheiro público não diminui — muda de envelope. E cada deputado que usa o serviço cria um débito invisível com quem comanda a Casa. Arthur Lira descobriu o padrão com passagens aéreas: o custo pago pela instituição gera reciprocidade mais durável que promessa verbal. O parlamentar sabe que o presidente lhe permitiu economizar. Sabe que pode deixar de permitir amanhã.
Há, no entanto, leitura que relativiza o ângulo de favorecimento. Em 2021, o TSE adotou modelo semelhante de aluguel de carros para ministros. Em 2022, a Câmara gastou R$ 24 milhões com locação de veículos — valor que, dividido por 513 deputados, dá R$ 3,8 mil por mês, menos do que muitos gastavam individualmente pelo cotão. O que parece mimo político pode ser também a padronização de um serviço que antes era fragmentado. O TCU, porém, ainda não publicou auditoria específica sobre o impacto do novo modelo desde a mudança de Lira com passagens. A premissa de compra de lealdade pode estar correta. Mas precisa ser testada antes de virar conclusão.
Motta está aprendendo rápido: o presidente que controla orçamento da Casa controla a Casa. Não pelo discurso. Pelo envelope.