Flávio Rocha: Estado hipertrofiado ameaça competitividade do varejo
Crítica à carga tributária acerta o sintoma. A metáfora da carruagem, não.
Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, afirmou em entrevista ao Hot Market que o crescimento acelerado do Estado brasileiro ameaça a competitividade do varejo. Segundo ele, a carga tributária real é mais pesada que os 32% frequentemente citados, pois incide sobre apenas 60% da economia formal. Rocha também apontou o recorde de ações trabalhistas — 3 milhões dos 4 milhões registrados no mundo — e criticou a isenção de impostos em importações de até 50 dólares, a chamada 'taxa das blusinhas'.
O diagnóstico tem lastro. Cobrar 32% sobre 60% da economia é, de fato, tributação concentrada e regressiva. Ninguém defende ineficiência estatal. O argumento de Rocha, porém, depende de uma premissa: que todo gasto público é peso morto, nunca investimento. É aí que sua metáfora da carruagem falha. Uma carruagem que transporta carga útil — educação, infraestrutura, saúde — não é só peso; é tração indireta. Países como Dinamarca e Suécia têm carga tributária acima de 40% e varejo competitivo. O que os difere não é o tamanho do Estado, mas a qualidade do gasto.
O dado sobre ações trabalhistas impressiona, mas carece de contexto. Em 2017, antes da reforma, o Brasil já registrava cerca de 2,5 milhões de processos. O número reflete também um sistema que facilita o ajuizamento, não necessariamente uma explosão de conflitos. Já a 'taxa das blusinhas' é o ponto mais frágil: Rocha pede equidade, mas omite que o varejo nacional há décadas se beneficia de proteções tarifárias que encarecem o consumo. O problema não é o peso da carruagem. É saber se ela está levando a sociedade a algum lugar, ou apenas girando em círculos.