Durigan projeta nova surpresa na economia no 2º trimestre — e enfrenta o teste da renda
Discurso bate com mercado. Dados de 2024 mostram que PIB alto pode conviver com consumo de baixa renda em queda.
Segundo o Vero Notícias, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a economia brasileira deve registrar desempenho superior às projeções do mercado no segundo trimestre de 2026. A declaração foi feita durante reunião ministerial, na qual o ministro também projetou inflação abaixo de 5% ao fim do mandato e citou medidas em curso para microempreendedores, sem detalhar prazos ou instrumentos. Durigan acrescentou que o governo atuará para mitigar os impactos do conflito entre EUA e Irã sobre a população, também sem especificar como.
O discurso do ministro é consistente com o que o mercado já precifica — as projeções do Focus para o PIB de 2026 subiram nas últimas semanas. Há, no entanto, uma distinção estrutural que a narrativa oficial costuma omitir: o que se chama de 'surpresa positiva' nem sempre chega ao bolso de quem trabalha. Em 2024, o PIB cresceu 3,4% acima das expectativas iniciais, enquanto o consumo das famílias com renda até dois salários mínimos caiu 1,2% em termos reais, segundo a POF do IBGE. O motor foi exportação de commodities e consumo de alta renda. A experiência recente sugere que 'desempenho acima das expectativas' pode coexistir com desigualdade crescente.
O dado de inflação abaixo de 5% também merece calibração. A meta contínua para 2026 é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto. Estar abaixo de 5% significa cumprir o teto, não o centro — a narrativa governista trata como vitória o que o regime de metas chama de limite superior. Somado à falta de instrumentos concretos para lidar com a pressão externa, o cenário deixa uma variável em aberto: a renda real do trabalhador no terceiro trimestre. É ela que dirá se a premissa de Durigan resiste ao contato com a realidade.