Caminhada de Douglas Ruas expõe operação de máquina em Belford Roxo
Não é sobre público. É sobre o que a máquina faz quando ninguém olha.
Segundo a coluna de Elizeu Pires, a caminhada de pré-campanha de Douglas Ruas (PL) em Belford Roxo, no último sábado (30), teve presença majoritária de ocupantes de cargos comissionados. O release oficial do evento — promovido pelo ex-prefeito Marcelo Canella e pelo presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda — celebrou a marcha como um sucesso de público, com "milhares de pessoas". Ruas enfrenta dissidências internas no PP e no União Brasil, enquanto nomes como Renato Cozzolino (PP) já declararam apoio a Eduardo Paes (PSD).
A leitura dominante do evento é clara: uma procissão de cabos eleitorais travestida de apoio popular, orquestrada por um ex-prefeito que quer voltar e um presidente partidário que mal conhece o município. A crítica tem lastro — falar em 95% de aprovação sem pesquisa registrada é marketing, não dado. Mas o argumento depende de uma premissa que merece teste: que multidão espontânea é o único termômetro de força eleitoral. Na Baixada Fluminense, onde o emprego público é um dos poucos amortecedores sociais, a capacidade de mobilizar a máquina municipal e garantir presença mínima em atos pode ser mais decisiva do que ruas cheias. Em 2022, candidatos que fizeram campanha com carros de som vazios e eventos inchados por funcionários públicos se elegeram. O volume não é sinal de derrota. É sinal de operação.
O verdadeiro cabo eleitoral de Ruas não é Rueda, mas Canella — e a capacidade do ex-prefeito de manter a prefeitura como base operacional mesmo fora do cargo. Se Canella controla a nomeação de comissionados e a liberação de contratos, o evento de sábado não foi esvaziado. Foi a demonstração de que a máquina segue funcionando, mesmo que o motor seja velho. A pergunta não é se Ruas terá multidão. É se Canella conseguirá mantê-la ligada até outubro.