BC entra no combate às bets após Fazenda perder a partida
Monitoramento chega com TCU apontando ‘deficiências sistêmicas’. Quem perde função perde garantia.
Segundo a Revista Oeste, o Banco Central começou a monitorar movimentações suspeitas no setor de apostas esportivas e jogos on-line no fim de maio. A diretoria colegiada do BC tomou a decisão no mesmo dia em que o Tribunal de Contas da União apontou 'deficiências sistêmicas' na Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Instituições financeiras têm até 1º de dezembro para efetivar o rastreamento via Fraud Marker.
A coincidência de datas não é acidental. O BC não está entrando no combate às bets ilegais por estar bem equipado. Está entrando porque a Fazenda perdeu a partida. O TCU registrou que o mercado ilegal movimenta entre R$ 26 bilhões e R$ 40 bilhões anuais — de 41% a 51% do total apostado. Esse número, no entanto, já caiu: antes da regulamentação, a fatia ilegal era de aproximadamente 70%. A regulação reduziu o espaço cinzento em 20 pontos percentuais em menos de um ano. O BC chega não necessariamente tarde, mas no momento em que a base regulatória está montada e o rastreamento financeiro se torna viável.
Quando uma autoridade monetária assume o trabalho que a Fazenda não fez, o movimento não é vitória. É redistribuição de fracasso. O BC ganha função e pressão; a Fazenda perde função e mantém a responsabilidade. O governo sai desta rodada mais fraco porque delegou atribuição crítica para quem responde a outro presidente. O rastreamento vai funcionar. A questão é se o governo sustenta a ficção de que ainda controla o combate quando quem opera o mecanismo real ocupa outro tabuleiro.