Abertura comercial: mais mercados, mesma pauta
Brasil sai de 555 para 616 destinos. O risco é trocar um comprador por muitos, mantendo o mesmo produto.
Segundo a CNN Brasil, o governo federal ampliou de 555 para 616 os mercados abertos para o agronegócio desde o fim de 2025. O secretário Luis Rua afirma que a diversificação reduz dependência de compradores específicos, e cita US$ 5 bilhões em exportações associadas aos novos destinos. O Ministério do Desenvolvimento destaca ainda acordos do Mercosul com Singapura, União Europeia e Efta, além de negociações em curso com México, Canadá e Índia.
O argumento depende de uma premissa central: que diversificar destinos significa automaticamente reduzir dependência. Há evidências para duvidar. Em 2024, os cinco principais produtos de exportação — soja, minério de ferro, petróleo, carne, açúcar — responderam por 48% do total embarcado. A abertura de mercados para o agro pode ser, na prática, abertura para o mesmo produto em mais prateleiras. O exemplo da Coreia do Sul pós-1997 ou do Chile pós-2014 mostra que quem se sai melhor não é quem tem mais compradores, mas quem muda o que vende. O Brasil seguiu caminho inverso: em 2000, commodities representavam 45% da pauta; em 2024, 68%.
Há uma consequência de segunda ordem que a reportagem tangencia. Se um tarifaço americano vier, o agronegócio tem mais rotas. Mas a indústria de transformação — que já responde por menos de 15% do PIB — fica ainda mais exposta. A política industrial NIB e as linhas de crédito do BNDES são mencionadas sem métrica de efetividade. A questão deixa de ser quantos mercados o Brasil abre. Passa a ser se a abertura atual é etapa de reindustrialização seletiva ou aceleração da reprimarização. Os próximos acordos — com México, Canadá, Índia — dirão mais que o volume de destinos.