QUASE: O Brasil que descobre, inventa e entrega para o mundo capitalizar
Da polilaminina ao cupuaçu: como a ausência de doutrina transforma capacidade inventiva em dependência tecnológica

Da polilaminina ao cupuaçu: como a ausência de doutrina transforma capacidade inventiva em dependência tecnológica
No dia 23 de outubro de 1906, um brasileiro de Minas Gerais decolou sozinho no Campo de Bagatelle, em Paris, diante de uma comissão oficial e de mais de mil testemunhas. O voo do 14-Bis durou sete segundos. Percorreu 60 metros. Homologado pela Federação Aeronáutica Internacional, foi o primeiro voo público, autônomo, sem catapulta, sem auxílio de vento, de um aparelho mais pesado que o ar.
Alberto Santos Dumont tinha construído a aeronave em pouco mais de um mês. Era filho de fazendeiro de café, autodidata em mecânica, apaixonado por Júlio Verne. Não patenteou nada. Em 1907, quando construiu o Demoiselle — seu modelo mais leve, 118 quilos — publicou os planos em uma revista popular para que qualquer pessoa pudesse replicar. O Demoiselle tornou-se a primeira aeronave produzida em série na história da aviação. Santos Dumont deu de presente ao mundo aquilo que poderia ter capitalizado como monopólio.
Essa generosidade virou símbolo. Mas o que o Brasil aprendeu com ela?
A resposta está em um detalhe que poucos sabem: o primeiro exoesqueleto controlado pelo cérebro humano, apresentado ao mundo na abertura da Copa do Mundo de 2014, foi batizado pelos seus criadores de “Brasil-Santos Dumont 1”. O neurocientista Miguel Nicolelis, brasileiro formado na USP e professor de neurobiologia na Duke University, escolheu esse nome deliberadamente. Em 12 de junho de 2014, Juliano Pinto — paraplégico, 29 anos — deu o chute inaugural da Copa usando pensamento. O gesto levou 18 meses para ser construído por 156 pesquisadores de múltiplos países, a partir do nada, e foi exibido por 29 segundos na transmissão global porque a FIFA cortou o tempo prometido.
Dois brasileiros, separados por um século. Dois gestos civilizacionais. A mesma narrativa estrutural: a invenção acontece, o mundo vê por alguns instantes, e o Brasil não capitaliza nada.
Santos Dumont não patenteou porque acreditava que a ciência devia ser livre. Nicolelis não capitalizou porque o sistema brasileiro não tem arquitetura para converter descoberta em ativo. São motivações distintas que produzem o mesmo resultado: a inteligência gerada aqui não retorna aqui.
O Estado que um dia soube decidir
Existe um momento preciso em que o Brasil agiu como Estado soberano em tecnologia. Foi em 1941, e foi resultado de um blefe geopolítico.
Getúlio Vargas queria uma siderúrgica. Desde 1931 declarava publicamente que a siderurgia era um “ideal” e que o Brasil não poderia continuar dependendo de importar aço para construir o próprio futuro. O problema era que nem os americanos nem os alemães queriam financiar o projeto nos termos que o Brasil exigia: controle nacional, capital misto, tecnologia transferida.
Vargas então fez o que Bueno de Mesquita descreveria décadas depois como otimização de coalizão: jogou as duas potências umas contra as outras. Em junho de 1940, num discurso a bordo do encouraçado Minas Gerais, sugeriu alinhamento com os países do Eixo. A mensagem foi suficientemente ambígua para que Washington lesse como ameaça real. Em menos de dois meses, o Export-Import Bank dos EUA liberou 20 milhões de dólares, com transferência de tecnologia incluída.
Em 9 de abril de 1941, a Companhia Siderúrgica Nacional foi criada em Volta Redonda. O Alto-Forno I foi aceso em 1946. O aço de Volta Redonda construiu Brasília, os metrôs do Rio e de São Paulo, a Ponte da Amizade, as fundações do parque fabril brasileiro. Era capital físico e simbólico: o Estado havia decidido que o Brasil não seria apenas exportador de minério bruto.
O que Vargas fez não foi gestão. Foi doutrina. A decisão de que o Brasil precisava produzir aço não era econômica no sentido contábil — era política no sentido estratégico. O Estado identificou o gap, criou o veículo, forçou o financiamento externo, transferiu tecnologia e instalou a capacidade produtiva. Sem isso, não haveria Embraer décadas depois. Sem a Embraer, não haveria os engenheiros do ITA. Sem o ITA, parte do capital humano que sustentaria a pesquisa aeronáutica brasileira simplesmente não teria sido formado.
Decisões de soberania têm dependência de trajetória. A CSN não foi apenas uma usina. Foi o ponto de bifurcação que criou condições para o próximo nível.
JK e o tempo acelerado
Juscelino Kubitschek compreendeu o raciocínio de Vargas e o levou ao limite. “Cinquenta anos em cinco” não era apenas slogan eleitoral. Era uma teoria da mudança institucional por choque de temporalidade: comprimir décadas de acumulação de capital físico, humano e simbólico em um ciclo político. A construção de Brasília foi o projeto-âncora, mas o programa de industrialização de JK foi mais profundo: autoindústria, energia, infraestrutura, formação técnica.
O ITA — Instituto Tecnológico de Aeronáutica — havia sido criado em 1950, dois anos antes da eleição de JK, por iniciativa de Casimiro Montenegro Filho, que havia estudado o MIT e decidiu replicar o modelo de excelência técnica no Brasil. O IME, criado em 1792 como Academia Real Militar e reformulado ao longo do século XX, já formava engenheiros militares com padrão de rigor comparável ao das melhores escolas européias. JK não criou essas instituições, mas governou num período em que elas consolidavam sua identidade.
O padrão que emerge desses três momentos — Santos Dumont, Vargas, JK — é sempre o mesmo: o Brasil é capaz de fazer o excepcional quando existe uma decisão política explícita de que o excepcional é necessário. A capacidade inventiva não falta. O que falta é a doutrina que transforma o excepcional em estrutura.
O arquipélago que nunca virou continente
O Brasil construiu, ao longo de um século, um conjunto de instituições científicas que não envergonhariam nenhum país desenvolvido. O problema não é a qualidade do que existe. É que o que existe não se conecta. São ilhas de excelência num oceano de subinvestimento crônico, de educação básica fragmentada e de ausência de doutrina que transforme esses pontos de luz em sistema integrado de soberania.
Entender o que essas instituições produziram é o pré-requisito para entender o que estamos desperdiçando.
Fiocruz: o Estado que aprendeu a curar
A Fundação Oswaldo Cruz nasceu em 1900 como um laboratório de soros e vacinas contra a peste bubônica no porto de Santos. Oswaldo Cruz, médico que acabara de passar pelo Instituto Pasteur em Paris, transformou aquilo em algo que o Brasil não esperava: um centro de pesquisa de classe mundial instalado em Manguinhos, no Rio de Janeiro, numa época em que o país ainda debatia se a febre amarela era contagiosa.
A trajetória da Fiocruz é também uma história de resistência institucional. Em 1970, o governo militar cassou dez de seus cientistas mais importantes pelo Ato Institucional nº 5, num episódio que ficou conhecido como o Massacre de Manguinhos. Os pesquisadores cassados eram aqueles que defendiam a pesquisa básica como missão de Estado — posição considerada subversiva numa ditadura que preferia ciência aplicada a serviço imediato da indústria. A instituição sobreviveu, e em 1985 reconquistou sua autonomia sob a liderança do sanitarista Sergio Arouca.
O que a Fiocruz representa hoje é incomum no mundo: uma instituição pública que produz vacinas distribuídas a 150 países, executa mais de mil projetos de pesquisa simultâneos, mantém 32 programas de pós-graduação com conceitos máximos na CAPES e ocupa consistentemente o primeiro lugar entre institutos de pesquisa brasileiros em qualidade de produção científica, segundo metodologia da Universidade de Leiden. Sua pesquisa sobre combinação de antirretrovirais para recém-nascidos alterou o protocolo mundial de tratamento do HIV e foi incorporada aos manuais da Organização Mundial da Saúde.
A Fiocruz não é apenas ciência. É o exemplo mais completo que o Brasil já construiu de ciclo integrado: pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico, produção de insumos, formação de capital humano e impacto em política pública. O que ela faz, faz inteiro. O que o sistema brasileiro nunca aprendeu foi a replicar essa lógica em outras áreas.
Embrapa: a revolução silenciosa que alimenta o mundo
Em 7 de dezembro de 1972, o presidente Médici sancionou a lei que criava a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A decisão não foi espontânea — foi resposta a uma crise: o Brasil importava alimentos básicos, o cerrado era considerado terra estéril por qualquer manual de agronomia da época, e o país sabia que precisava de soberania alimentar para sustentar sua industrialização.
A Embrapa foi desenhada com dois princípios que a diferenciaram de tudo que existia: pesquisa orientada por problema concreto, não por curiosidade acadêmica, e formação de capital humano nos melhores centros do mundo, não por geração espontânea interna. Nas primeiras décadas, centenas de pesquisadores foram enviados para doutorados nos EUA, Europa e Japão com uma condição explícita de retorno e aplicação do conhecimento ao contexto brasileiro.
O resultado foi uma das transformações mais rápidas da história agrícola moderna. O cerrado, que os agronômos internacionais descartavam como inapto para cultivo em larga escala, tornou-se o maior produtor de soja do planeta. A Embrapa desenvolveu variedades de soja adaptadas ao solo ácido e ao clima tropical que simplesmente não existiam antes — não foram importadas, foram criadas. Criou o cupulate, o chocolate derivado do cupuaçu, cuja patente defendeu com sucesso contra a tentativa japonesa de apropriação. Desenvolveu tecnologias de fixação biológica de nitrogênio que reduziram a necessidade de fertilizantes sintéticos em escala que impactou a balança comercial brasileira.
A Embrapa está entre as dez maiores instituições de pesquisa do Brasil em produção científica indexada, comparável às maiores universidades federais. Mas, ao contrário da maioria delas, sua produção tem resultado aplicado mensurável: variedades registradas, processos industriais licenciados, tecnologias adotadas por agricultores em escala continental.
O modelo Embrapa é um dos casos mais bem-sucedidos do mundo de conversão de investimento público em ativo estratégico de soberania alimentar. E, significativamente, foi construído durante a ditadura militar — o que demonstra que a decisão doutrinária de tratar pesquisa como vetor de soberania transcende qualquer arranjo político específico. É uma questão de prioridade de Estado, não de coloração ideológica.
ITA e IME: a elite que o Brasil forma e não retém
O Instituto Tecnológico de Aeronáutica foi criado em 1950 por Casimiro Montenegro Filho, que havia estudado o MIT e voltou com uma ideia simples e radical: o Brasil precisava de uma escola de engenharia com padrão de excelência comparável ao dos países que lideravam a corrida tecnológica do pós-guerra. O ITA foi desenhado para ser seletivo, intensivo e orientado à aplicação. Seus egressos construíram a Embraer, participaram dos programas espaciais, integraram as equipes de pesquisa que desenvolveram as primeiras aeronaves nacionais de médio porte vendidas internacionalmente.
O IME — Instituto Militar de Engenharia — tem raízes ainda mais antigas: descende da Academia Real Militar criada em 1792 por D. João VI, reformulada ao longo do século XIX e reorganizada no século XX como centro de excelência em engenharia de alta complexidade. Suas áreas de ponta em materiais avançados, sistemas de propulsão e engenharia química produzem pesquisadores que competem com os melhores do mundo.
O problema estrutural não é a qualidade da formação. É o destino dos formados.
O egresso do ITA que decide seguir carreira acadêmica encontra um sistema de avaliação que mede publicação, não impacto. O que decide ir para o setor privado encontra pouquíssimas empresas brasileiras com capacidade de absorver engenheiros de ponta em projetos de fronteira tecnológica. O que decide emigrar encontra um mercado global de trabalho que paga dez vezes mais e oferece infraestrutura que o Brasil não consegue garantir.
A Embraer é a exceção que confirma a regra: existe porque o Estado decidiu, em 1969, que o Brasil precisava de uma indústria aeronáutica nacional, criou o ITA para formar o capital humano, e financiou o desenvolvimento tecnológico com recursos públicos por décadas antes que a empresa se tornasse competitiva no mercado internacional. Foi um projeto de soberania de vinte anos de maturação — exatamente o tipo de horizonte que a lógica contábil de curto prazo jamais aprovaria.
O padrão que se repete
Existe um invariante em todas essas histórias. A Fiocruz foi criada por um Estado que entendia que saúde pública era questão de soberania. A Embrapa foi criada por um Estado que entendia que soberania alimentar era questão estratégica. O ITA foi criado por um Estado que entendia que aeronáutica era território soberano. Em todos os casos, a decisão doutrinária precedeu o investimento. O investimento seguiu a doutrina, não o contrário.
O que essas instituições têm em comum, além da excelência, é que cada uma opera como ilha. A Fiocruz não tem canal estruturado para transferir tecnologia sanitária para a indústria farmacêutica nacional de forma sistemática. A Embrapa tem mais de 10.000 ativos de propriedade intelectual registrados com apenas 7,5% do financiamento do FNDCT destinado a interações com o setor privado. O ITA forma engenheiros sem contrato de vinculação a projetos nacionais explícitos, como havia no modelo coreano dos anos 1980 com os Chaebols.
O Brasil construiu os ingredientes. Nunca construiu a receita.
O número que resume tudo
Enquanto essas ilhas de excelência existem no topo do sistema, a base está em colapso silencioso. No PISA 2022, o Brasil ocupou o 65º lugar em matemática, o 62º em ciências e o 53º em leitura entre 81 países avaliados. Não é a posição que choca — é o que está por trás dela: 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingiram o nível básico em matemática, definido pela OCDE como o mínimo necessário para exercer cidadania plena. Em números absolutos, isso significa que 7 em cada 10 jovens de 15 anos não conseguem resolver problemas como converter moedas ou comparar distâncias percorridas por um carro em dois caminhos.
A estagnação é mais reveladora que o número absoluto. Desde 2009, as pontuações brasileiras no PISA flutuam numa banda estreita, sem tendência consistente de melhora. O Brasil não está regredindo — está parado enquanto o mundo se move. E a diferença de 20 pontos no PISA equivale a aproximadamente um ano de aprendizado escolar. O Brasil está, na média, entre três e quatro anos de aprendizado abaixo dos países da OCDE. É uma defasagem geracional, não de uma cohort.
Há uma assimetria que precisa ser nomeada: o Brasil investe em ilhas de excelência no topo enquanto o alicerce se deteriora. O ITA seleciona os melhores 1% dos candidatos — mas o pool de candidatos é formado por um sistema de ensino médio que não prepara nem a metade para o básico. A Fiocruz recruta pesquisadores de pós-graduação — mas a pós-graduação depende de uma graduação que depende de uma educação básica que já chegou incompleta.
Soberania tecnológica sem base educacional é uma pirâmide invertida. Sustenta-se enquanto as ilhas de excelência conseguem capturar os raros talentos que escapam do afunilamento. Mas é estruturalmente frágil, porque o pipeline que alimenta essas ilhas é estreito demais para o tamanho do país.
A Coreia do Sul começou sua transformação tecnológica com 0,2% do PIB em P&D nos anos 1960. O Brasil hoje investe menos de 1,2%. Mas a diferença não é só orçamentária: é que a Coreia construiu ao mesmo tempo a excelência no topo e a expansão da base. O sistema de ensino coreano não é apenas rigoroso na ponta superior — é rigoroso na média. O Brasil construiu a ponta sem fortalecer a média.
O resultado é um país com capacidade de gerar Santos Dumont em proporção muito menor do que seu tamanho e potencial permitiriam. E sem a doutrina que converte o que é gerado em ativo de soberania.
O que acontece quando o gênio não encontra o sistema
Existe um padrão que se repete com regularidade perturbadora na história científica brasileira. O pesquisador produz algo que o mundo reconhece como relevante. O Brasil aplaude brevemente. E então o ativo se perde: por ausência de proteção, por falta de financiamento de continuidade, por conflito institucional, por emigração, ou simplesmente porque o sistema não foi desenhado para converter descoberta em capital estratégico.
Não é falta de talento. É falta de arquitetura.
Os três casos a seguir não foram escolhidos por serem os mais dramáticos, foram escolhidos porque são estruturalmente representativos. Cada um ilumina uma falha diferente do mesmo sistema ausente.
Miguel Nicolelis: o Brasil que não sabe o que fazer com seus gênios
Em 1989, Miguel Nicolelis deixou o Brasil. Havia se formado em medicina pela USP e concluído o doutorado. Partiu para um pós-doutorado nos Estados Unidos, como tantos outros. A diferença é o que ele fez de lá: tornou-se um dos neurocientistas mais influentes do mundo, pioneiro das interfaces cérebro-máquina, professor titular e co-diretor do Center for Neuroengineering da Duke University.
Em 2003, Nicolelis tomou uma decisão que deveria ser case de política científica: voltou ao Brasil para construir um polo de pesquisa de fronteira na periferia de Natal, no Rio Grande do Norte. O Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra foi desenhado para ser um modelo alternativo: descentralizar a excelência científica, integrar pesquisa de ponta com educação científica e impacto social em uma das regiões mais excluídas do país. Construiu laboratórios, criou escolas, repatriou pesquisadores, atraiu parcerias internacionais.
O que aconteceu em seguida é uma síntese precisa do problema estrutural brasileiro.
O projeto foi atacado por colegas na academia, que foram a jornais e revistas internacionais questionar sua viabilidade, o que Nicolelis descreveu como “o medo, o terror da competição de alto nível”. Entrou em conflito com a UFRN por disputa de equipamentos financiados com verba pública. O governo Temer fechou as escolas do campus em 2017. Entre 2013 e 2014, Nicolelis foi institucionalmente desligado do instituto que havia criado, enquanto o projeto de Natal foi reorganizado sob nova administração governamental.
Em 2020, retornou definitivamente ao Brasil como professor emérito da Duke, uma das raras repatriações voluntárias de um cientista nessa posição. Coordenou o comitê científico do Consórcio Nordeste durante a pandemia. Deixou o cargo em 2021, frustrado com governadores que ignoravam sistematicamente as recomendações técnicas.
A trajetória de Nicolelis não é uma história de fracasso pessoal. É uma história de sucesso individual que o sistema institucional brasileiro não soube absorver, proteger ou capitalizar. Um cientista que tenta construir dentro do país encontra disputas de equipamento, ataques de pares, instabilidade de financiamento e indiferença política. O mesmo que tenta colaborar com o Estado encontra gestores que não adotam recomendações. O país aplaude o exoesqueleto na Copa e ignora o que seria necessário para que mais exoesqueletos fossem criados aqui, por aqui, e permanecessem aqui.
O exoesqueleto foi chamado de “Brasil-Santos Dumont 1”. Nicolelis escolheu esse nome deliberadamente. A homenagem era uma hipótese: e se, desta vez, o Brasil soubesse o que fazer com sua própria invenção?
A resposta do sistema foi 29 segundos de transmissão cortada pela FIFA e uma disputa judicial sobre equipamentos em Natal.
Polilaminina: 28 anos entre a descoberta e o tratamento
Em 1998, pesquisadores da UFRJ identificaram uma proteína da família das lamininas com propriedades até então desconhecidas: capacidade de promover regeneração nervosa em lesões medulares que a medicina considerava irreversíveis. A descoberta tinha potencial para alterar o tratamento de tetraplégicos e paraplégicos em escala global.
O que se seguiu é uma crônica de atraso sistêmico com custo humano mensurável.
O pedido de patente foi depositado em 2007. A patente nacional foi concedida em 2025, dezoito anos depois, quando restavam apenas dois dos vinte anos de exclusividade que a lei garante. No intervalo, as taxas de manutenção da patente internacional, valores na ordem de cinco a dez mil reais anuais, não foram garantidas pelo sistema público. A pesquisadora responsável chegou a pagar do próprio bolso para manter a patente nacional ativa. A proteção internacional foi perdida.
A parceria com a empresa farmacêutica Cristália, que poderia ter sido firmada na primeira década para acelerar o desenvolvimento clínico, foi formalizada apenas em 2018, dez anos após o início do processo. A Anvisa autorizou os estudos clínicos de fase 1 apenas em 2026. Entre a descoberta e a primeira testagem clínica controlada: 28 anos.
Para um paciente com lesão medular ocorrida em 1998, esse intervalo é a extensão de toda uma vida adulta em cadeira de rodas. O custo não é contábil. É existencial.
O caso da polilaminina não é uma anomalia. É o funcionamento normal de um sistema que trata propriedade intelectual como burocracia e não como ativo estratégico de soberania. A UFRJ não perdeu a patente por incompetência científica, perdeu porque não existe no Brasil um mecanismo que identifique automaticamente pesquisas com potencial de soberania, garanta financiamento das taxas de manutenção e acione uma rota de capitalização antes que o ativo se torne royalty importado.
O Brasil inventou a proteína. O mundo teria os direitos. E a pesquisadora teria pago do próprio bolso para que isso não acontecesse.
Cupuaçu: quando o nome da fruta virou propriedade estrangeira
Em 20 de março de 1998, o mesmo ano em que os pesquisadores da UFRJ descobriam a polilaminina, a empresa japonesa Asahi Foods registrou perante o Escritório de Marcas e Patentes do Japão a palavra “cupuaçu” como marca comercial exclusiva. O registro se estendeu aos Estados Unidos e à União Europeia. O cupulate, o chocolate derivado das amêndoas do cupuaçu, cujo processo de industrialização havia sido desenvolvido pela Embrapa ainda na década de 1980, também foi objeto de pedido de patente pela mesma empresa.
O Brasil descobriu o que havia acontecido em 2002, quatro anos depois, quando uma cooperativa de produtores do Acre tentou fechar um contrato de exportação de derivados de cupuaçu com uma empresa alemã. A resposta foi direta: o negócio só poderia ser concluído se o nome “cupuaçu” não aparecesse nos rótulos, pois a marca pertencia à Asahi Foods. Qualquer produtor brasileiro que quisesse vender cupulate no mercado japonês, americano ou europeu teria que pagar royalties à empresa japonesa pelo direito de usar o nome de uma fruta originária da Amazônia.
A reversão não veio do governo. Veio da sociedade civil: a ONG acreana Amazonlink, o Instituto do Direito do Comércio Internacional e Desenvolvimento e escritórios de advocacia trabalharam por anos para reverter o registro. Em 2004, o Escritório de Patentes do Japão invalidou o registro da marca. Posteriormente, a própria Asahi Foods cancelou os pedidos nos EUA e na Europa. A Embrapa também conseguiu que o Japão não concedesse a patente do cupulate, apresentando provas de que o processo havia sido desenvolvido por sua pesquisadora Raimunda Fátima Nazaré na década de 1980.
Dois aspectos do caso merecem análise estrutural.
Primeiro: o governo brasileiro foi o último a se mover. A batalha foi travada por ONGs e escritórios de advocacia sem qualquer apoio governamental inicial. Somente depois da reversão o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Meio Ambiente se mobilizaram para listar espécies brasileiras em risco de apropriação similar. A soberania foi defendida apesar do Estado, não pelo Estado.
Segundo: o cupuaçu não foi o único caso. O mesmo episódio revelou tentativas semelhantes com o açaí, a andiroba e a copaíba. A andiroba havia sido patenteada por uma empresa francesa e pela japonesa Morita Masaru. O padrão é sistemático: recursos biológicos originários da biodiversidade brasileira são pesquisados, processados e patenteados por empresas estrangeiras enquanto o Brasil exporta a matéria-prima in natura.
O caso do cupuaçu demonstra com clareza o que acontece quando um país com imenso patrimônio biológico não trata esse patrimônio como território soberano. Território não monitorado é território ocupável. E a Amazônia, do ponto de vista da propriedade intelectual sobre suas espécies, tem sido ocupada sistematicamente há décadas.
O padrão: o que os três casos têm em comum
Nicolelis, polilaminina e cupuaçu são casos distintos em natureza, um envolve capital humano, outro propriedade intelectual biotecnológica, outro patrimônio biológico. Mas os três compartilham a mesma falha estrutural de origem.
Em nenhum dos três casos o Brasil tinha um sistema que identificasse o potencial estratégico do ativo antes que ele se perdesse. Nicolelis foi para os EUA porque o Brasil de 1989 não tinha infraestrutura para absorvê-lo e quando voltou para construir, o sistema não soube proteger o projeto. A polilaminina ficou dezoito anos esperando uma patente porque não existe mecanismo que garanta automaticamente a proteção de pesquisas com potencial de soberania em saúde. O cupuaçu foi registrado por uma empresa japonesa em 1998 porque o Brasil não monitorava o que acontecia com sua biodiversidade nos escritórios de patentes internacionais.
O denominador comum não é incompetência pontual. É ausência de doutrina.
Doutrina, nesse contexto, tem um significado preciso: a decisão explícita de tratar determinados ativos: capital humano de fronteira, propriedade intelectual derivada de pesquisa pública, biodiversidade como recurso estratégico, como território soberano que o Estado tem obrigação de monitorar, proteger e capitalizar. Sem essa decisão, cada caso se resolve no varejo, por ONGs, por pesquisadores que pagam do próprio bolso, por batalhas judiciais tardias. Com ela, o sistema age antes da perda, não depois.
Existe uma frase de Nicolelis que resume o argumento com precisão cirúrgica, dita em 2017 numa palestra na USP sobre cortes orçamentários:
“Quando você faz um contingenciamento de 45% estrangulando a maior universidade do país, você mata a possibilidade de um país, uma cultura, uma sociedade ser soberana. Um país que renuncia sua soberania passa a ser vassalo de outras sociedades.”
Ele não estava falando de ciência. Estava falando de poder.
Emergentes que decidiram
Existe uma diferença fundamental entre países que melhoram seus indicadores de CT&I e países que constroem soberania tecnológica. A melhoria de indicadores é consequência de investimento. Soberania tecnológica é consequência de doutrina. A distinção não é semântica. É estrutural.
Os casos que se seguem foram selecionados por um critério específico: países com ponto de partida comparável ao do Brasil em alguma dimensão relevante: tamanho, renda per capita, desigualdade, instabilidade institucional, que tomaram decisões doutrinárias explícitas e produziram resultados mensuráveis num horizonte de 20 a 40 anos. Não são modelos perfeitos. São espelhos estruturais.
Coreia do Sul: a sequência que o Brasil não completou
Em 1961, quando o general Park Chung-hee chegou ao poder por um golpe, a Coreia do Sul tinha renda per capita inferior à do Brasil. O país havia saído de uma guerra devastadora menos de uma década antes, sem indústria estabelecida, sem capital acumulado e com uma tradição confuciana de Estado que valorizava burocracia meritocrática mais do que inovação tecnológica.
O que Park fez não foi gestão econômica ortodoxa. Foi, como descreve Fukuyama, industrial policy utilizada como instrumento de crescimento acelerado, com sequenciamento deliberado: primeiro industrialização, depois democratização. A decisão foi autoritária em seus meios e estratégica em seus objetivos. Os Chaebols: Samsung, Hyundai, LG foram construídos em parceria explícita com o Estado, que direcionava crédito subsidiado, exigia contrapartidas de exportação e estabelecia metas de transferência tecnológica.
O ponto crítico para nossa análise é 1982. Nesse ano, diante da recusa sistemática de empresas estrangeiras em transferir tecnologia de ponta, os japoneses e americanos eram particularmente restritivos, o governo sul-coreano tomou uma decisão que não era óbvia: investir massivamente em P&D nacional, em vez de continuar dependendo de licenciamentos. O KAIST, criado em 1971 com modelo inspirado no MIT, passou a receber mandato explícito para formar engenheiros vinculados à agenda industrial nacional. Os egressos não tinham liberdade irrestrita de destino, havia um contrato implícito de que o conhecimento formado com recurso público serviria ao projeto nacional.
O resultado é documentado: o investimento em P&D passou de 0,2% do PIB nos anos 1960 para mais de 4,5% nos anos 2000, inversão que ocorreu porque o setor privado foi induzido a investir, não apenas o governo. Em 1981, o Estado respondia por 53,5% de todo o P&D nacional. Em 2005, o setor privado respondia por 75,6%. Essa inversão não foi espontânea. Foi resultado de décadas de incentivos que tornavam o investimento privado em tecnologia racionalmente superior ao investimento em extração de renda.
A lição estrutural da Coreia não é “invista mais em ciência”. É: crie incentivos que tornem o capital humano formado pelo Estado útil ao projeto industrial nacional, e crie mecanismos que obriguem o setor privado a internalizar o custo de sua própria atualização tecnológica. Quando esses dois elementos se combinam, o orçamento público se torna alavanca, não fim.
O Brasil teve seu Park Chung-hee: foi Vargas, e depois o próprio regime militar nos anos 1970, com a Embrapa e a Embraer. A diferença é que o Brasil nunca completou a sequência. A fase 1 existiu: o Estado criou capacidade. A fase 2 nunca foi institucionalizada: o setor privado não foi induzido a absorver essa capacidade como parte de um projeto nacional de longo prazo.
Índia: diáspora como ativo, não como perda
A Índia tem um problema parecido com o do Brasil e uma resposta estruturalmente diferente.
Seus engenheiros emigram. O IIT produz aproximadamente 10.000 engenheiros por ano a partir de 500.000 candidatos, uma seletividade que produz talento de nível mundial. E boa parte desse talento vai para Silicon Valley, Londres ou Cingapura. O Brasil chama isso de “fuga de cérebros” e trata como tragédia passiva. A Índia, a partir dos anos 2010, passou a tratar como ativo gerenciável.
O programa VAIBHA, Vaigyanik Advancements through Vibrant India, foi desenhado com uma lógica invertida: em vez de tentar impedir a emigração, oferece aos cientistas da diáspora remuneração competitiva (em torno de 5.000 dólares mensais adicionais) para trabalhar em instituições indianas por períodos de seis meses a um ano, em áreas definidas como estratégicas: computação quântica, inteligência artificial, semicondutores, aeroespacial. O contrato não é de repatriação. É de contribuição temporária a um projeto nacional, sem exigir que o cientista abra mão de sua posição internacional.
O segundo movimento indiano é ainda mais relevante para o Brasil: a decisão de tratar a infraestrutura digital como território soberano. O India Stack, sistema que integra Aadhaar (identidade biométrica universal), UPI (pagamentos instantâneos) e ONDC (comércio digital aberto), foi construído como infraestrutura pública, não como produto de empresa privada. A consequência é que o fluxo de dados das transações econômicas de 1,4 bilhão de indianos não pertence ao Google, ao Facebook ou ao Alibaba. Pertence a uma arquitetura de Estado. Quando o governo indiano negociou com as Big Techs, negociou de uma posição de quem controla o acesso ao mercado, não de quem depende da plataforma.
O Brasil construiu o PIX, um dos sistemas de pagamento instantâneo mais avançados do mundo, obra do Banco Central. Mas não construiu a camada de soberania de dados que transforma infraestrutura de pagamento em alavanca de poder sobre plataformas digitais. O PIX existe. A doutrina que o transforma em instrumento de soberania, não.
O que esses modelos têm que o Brasil não tem
Coreia e Índia são países autoritários em algum momento de sua trajetória recente? Sim. Isso é relevante para o argumento? Não diretamente, porque a Embrapa também foi criada pela ditadura militar brasileira e é hoje uma das instituições mais bem-sucedidas de pesquisa aplicada do mundo. O que importa não é o regime. É a existência de decisão doutrinária explícita que precede e orienta o investimento.
Os dois países compartilham algo que o Brasil não tem: um mecanismo que converte talento formado pelo Estado em ativo estratégico nacional, seja pela vinculação coreana entre formação e projeto industrial, seja pela mobilização indiana da diáspora como recurso, não como perda. E os dois tratam sua infraestrutura digital e seu capital biológico ou tecnológico como território que o Estado tem obrigação ativa de proteger, não como mercado aberto a quem pagar mais.
O Brasil trata seu talento como recurso renovável que se perde naturalmente. Trata sua biodiversidade como abundância não-monitorada. Trata sua propriedade intelectual derivada de pesquisa pública como burocracia do INPI. Trata sua infraestrutura digital como conveniência do consumidor. Em nenhum desses campos existe a decisão doutrinária de que estamos diante de território soberano, com as consequências operacionais que essa decisão implicaria.
A base que precisa existir para que o topo faça sentido
Há uma dimensão que os modelos coreano e indiano explicitam e que o Brasil sistematicamente evita integrar ao debate de soberania tecnológica: educação básica não é política social. É pré-condição de soberania.
A Coreia dos anos 1960 tinha uma taxa de alfabetização baixa e um sistema educacional fragmentado. O que Park Chung-hee fez e isso é raramente mencionado quando se celebra o “milagre coreano” foi investir simultaneamente na excelência de ponta e na expansão massiva da base. O sistema de ensino coreano não é apenas rigoroso nas universidades de elite. É rigoroso na média. A proporção de jovens que atingem proficiência básica em matemática na Coreia é superior a 90%. No Brasil, como vimos, é inferior a 30%.
Isso importa para a soberania tecnológica porque o pipeline que alimenta o ITA, o IME, a Fiocruz e a Embrapa passa, necessariamente, pela escola pública de ensino médio. Quando 73% dos jovens de 15 anos não atingem o nível básico em matemática, o pool de candidatos para as carreiras científicas e tecnológicas de ponta se estreita para uma fração minúscula da população e essa fração, na maioria dos casos, veio de escola particular. O que o Brasil faz, na prática, é usar recurso público para formar elite científica a partir de um pool demograficamente excludente.
Isso não é apenas injusto. É ineficiente do ponto de vista da soberania. Cada jovem talentoso que abandonou o sistema escolar antes de manifestar sua capacidade é um pesquisador que nunca existiu, uma patente que nunca foi depositada, uma empresa de base tecnológica que nunca foi fundada. O custo não aparece em nenhuma conta, mas é real e composto ao longo de gerações.
A pirâmide brasileira de CT&I está invertida. A ponta de excelência existe e é genuína. A base que deveria alimentar essa ponta está em colapso silencioso e estagnado há mais de uma década. Soberania tecnológica construída sobre essa estrutura é sempre frágil, depende de capturar os raros talentos que escapam do afunilamento, e é permanentemente vulnerável à emigração desses talentos porque o sistema não oferece condições de retenção compatíveis com o que o exterior oferece.
A Coreia resolveu esse problema tratando educação como infraestrutura de soberania, com a mesma seriedade com que tratou siderurgia nos anos 1940 e semicondutores nos anos 1980. A Índia resolveu parcialmente tratando a diáspora como extensão do sistema, não como perda dele.
O Brasil ainda não fez nenhuma das duas coisas. Continua aplaudindo suas ilhas de excelência enquanto o continente que deveria conectá-las se fragmenta em desigualdade educacional crescente e chamando isso de política científica.
A natureza do argumento
Este bloco não é um plano de governo. Não é um conjunto de recomendações para uma comissão ministerial. É uma provocação estrutural no sentido preciso do termo: uma intervenção que força a pergunta que o debate brasileiro sobre ciência e tecnologia sistematicamente evita.
A pergunta não é “quanto investir em pesquisa”. É: o Brasil já tomou a decisão doutrinária de tratar conhecimento como território soberano?
A resposta honesta é não. E enquanto essa decisão não existir, os instrumentos, orçamento, editais, plataformas, programas, serão sempre insuficientes, porque instrumentos sem doutrina são respostas sem pergunta. Financiam projetos. Não constroem soberania.
O que se segue são três provocações estruturais, cada uma formulada como diagnóstico que implica ação, não como proposta técnica acabada, mas como argumento que exige resposta.
Provocação 1: o Brasil precisa de um Registro Nacional de Pesquisa Estratégica
Existe no Brasil hoje uma Plataforma Nacional de Infraestrutura de Pesquisa que cadastra equipamentos e laboratórios. Existe um Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq que mapeia linhas de trabalho. Existem editais setoriais da Finep que financiam projetos por demanda.
O que não existe é um mecanismo que identifique pesquisa com potencial estratégico antes que o ativo se perca, antes que a taxa de manutenção da patente vença, antes que o pesquisador emigre, antes que a empresa estrangeira registre o nome da fruta amazônica.
O cupuaçu foi registrado no Japão em 1998. O Brasil descobriu em 2002. Quatro anos de janela perdida e a reversão custou batalha jurídica internacional travada por ONGs sem apoio governamental. A polilaminina teve seu pedido de patente depositado em 2007 e sua concessão em 2025. Dezoito anos de exclusividade consumidos em espera burocrática.
A provocação é simples: se o Brasil tratasse pesquisa com potencial de soberania da mesma forma que trata instalação militar, como território que o Estado monitora, protege e defende proativamente, qual seria a arquitetura mínima necessária para isso?
A resposta que a análise anterior sugere é um mecanismo de identificação precoce: um registro que enquadre pesquisas em categorias de soberania: substituição de importação crítica, autonomia em insumo estratégico, fronteira tecnológica e que acione automaticamente três efeitos.
Primeiro, tramitação prioritária de PI no INPI com cobertura das taxas de manutenção garantidas por fundo setorial. Segundo, visibilidade imediata para o ecossistema privado via plataforma aberta da Finep. Terceiro, proteção orçamentária que impeça contingenciamento da pesquisa vinculada ao registro.
Custo: portaria conjunta MCTI e Fazenda, decreto presidencial, noventa dias de prazo para implementação. Zero verba nova. Exclusivamente redesenho doutrinário de mecanismos que já existem.
A pergunta que essa provocação força é esta: por que não existe? A resposta revela o problema central. Não falta tecnologia burocrática para criar o mecanismo. Falta a decisão política de que pesquisa com potencial de soberania constitui território que o Estado tem obrigação de proteger antes da perda, não de lamentar depois.
Provocação 2: o Brasil forma talento para o mundo e chama isso de internacionalização
O Ciência sem Fronteiras enviou 58.808 bolsistas ao exterior entre 2011 e 2016. Era um programa desenhado para formação e formou. O problema é que foi desenhado sem a segunda metade: a política de absorção. Pesquisa da PUCRS mostrou que alunos do programa trancavam mais e se formavam menos no tempo esperado. Pesquisa da UFV mostrou que a maioria pretendia retornar ao exterior para construir carreira. O programa exportou o investimento que pretendia importar conhecimento.
Isso não é julgamento moral sobre os bolsistas, é análise de incentivos. Um jovem pesquisador brasileiro que passa dois ou três anos numa universidade de ponta no exterior, integra grupos de pesquisa com infraestrutura superior, acessa salários incomparáveis e convive com sistemas de valorização profissional que o Brasil não oferece, não está traindo ninguém quando decide ficar. Está respondendo racionalmente a incentivos que o próprio Estado criou sem criar a contrapartida.
A Índia resolveu esse problema de forma estruturalmente elegante: o programa VAIBHAV não exige repatriação. Oferece contrato de contribuição temporária, seis meses, um ano, em áreas definidas como estratégicas, com remuneração competitiva paga sobre a bolsa existente. O cientista mantém sua posição internacional e contribui ao projeto nacional sem precisar escolher entre os dois. O Estado captura o conhecimento sem precisar competir com as condições do exterior.
O Brasil tem o análogo embrionário: o programa Conhecimento Brasil, relançado pela Finep e o MCTI em fevereiro de 2026, agora contempla “repatriação, fixação e atração de pesquisadores de excelência”. O sinal está correto. A provocação é: contemplar não é vincular. Atrair não é estruturar.
O que falta é o mecanismo que conecta o pesquisador atraído a uma demanda tecnológica explícita, não a uma vaga institucional genérica, mas a um gap estratégico mapeado, com marco de resultado mensurável, com prazo e com contrapartida proporcional ao output gerado. Esse é o modelo coreano do KAIST dos anos 1980 e o modelo indiano do VAIBHAV dos anos 2010. São modelos diferentes em muitos aspectos, mas compartilham a mesma lógica estrutural: o Estado define o problema antes de recrutar quem vai resolvê-loe não o contrário.
A pergunta que essa provocação força: o Brasil sabe quais são seus gaps tecnológicos estratégicos? Existe um mapa, atualizado anualmente, que identifique onde o país importa tecnologia que poderia produzir, onde há pesquisa avançada sem parceiro industrial, onde há ativos de PI da Embrapa ou da Fiocruz sem rota de capitalização? Se não existe esse mapa, qualquer programa de atração ou retenção de talentos é oferta de vaga sem endereço, recrutamento sem projeto.
Provocação 3: o Brasil mede o que não importa e ignora o que importa
O sistema Qualis-CAPES, que avalia pesquisadores, programas e instituições de pós-graduação, mede publicação em periódicos classificados. Quanto mais alto o estrato da revista, mais pontos o pesquisador acumula. O sistema foi desenhado para elevar a qualidade da produção científica brasileira em termos de inserção internacional e cumpriu esse objetivo. O Brasil é hoje o 13º produtor mundial de conhecimento científico em volume de publicações.
O problema é o que o sistema não mede: impacto aplicado. Uma patente depositada vale menos que um artigo em revista A1. Uma tecnologia transferida para a indústria, que reduz importação de insumo crítico, cria emprego qualificado, gera royalty para a universidade, não tem equivalente no sistema de avaliação.
Um pesquisador que passa cinco anos desenvolvendo um processo industrial inovador em parceria com empresa nacional e entrega um resultado mensurável em termos de soberania produtiva está, pelo critério do Qualis, em desvantagem em relação ao colega que publicou dez artigos no mesmo período.
Isso não é acidente. É escolha institucional que produz incentivos coerentes com sua própria lógica e incompatíveis com a lógica de soberania.
A provocação não é abolir o Qualis. É criar um segundo trilho de avaliação que coexista com o primeiro, voltado para impacto aplicado, com métricas verificáveis e peso na carreira proporcional ao das publicações. Patente depositada e concedida. Transferência de tecnologia formalizada. Adoção em política pública federal ou estadual. Redução mensurável de importação em setor estratégico. Quatro indicadores simples, auditáveis, que criariam um sinal de mercado interno na academia brasileira que hoje não existe.
A pergunta que essa provocação força: o Brasil quer que seus pesquisadores produzam conhecimento para o mundo ou ativos para o Brasil? As duas coisas não são mutuamente exclusivas, mas enquanto o sistema de recompensas não distinguir entre elas, o comportamento racional do pesquisador é publicar para o mundo e deixar a aplicação para quem tiver recursos externos para bancar.
O que une as três provocações
As três provocações têm uma raiz comum. Não pedem mais dinheiro. Pedem uma decisão doutrinária que reorganize como o Brasil olha para o que já existe.
Identificação precoce de pesquisa estratégica é uma decisão sobre o que o Estado considera território soberano. Vinculação de talento a projetos nacionais é uma decisão sobre o que o Estado considera ativo gerenciável. Criação de métricas de impacto aplicado é uma decisão sobre o que o Estado considera resultado válido.
As três decisões podem ser tomadas com instrumentos existentes, por portarias e decretos, sem esperar aprovação orçamentária extraordinária. Não requerem um novo ministério, uma nova agência ou um novo programa. Requerem uma coisa apenas: a doutrina que torna a decisão politicamente sustentável ao longo de ciclos eleitorais, porque a lógica de soberania, por definição, opera em horizonte de 10 a 20 anos, e nenhum governo isolado tem incentivo de curto prazo para construir algo que seu sucessor colherá.
Esse é o problema político real. Não é falta de inteligência técnica nas instituições brasileiras: a Fiocruz, a Embrapa, o ITA e o IME demonstram que essa inteligência existe em abundância. É a estrutura de incentivos políticos que torna racionalmente superior para qualquer governante investir em resultado visível no ciclo eleitoral do que em soberania de longo prazo invisível no noticiário.
A Coreia de Park Chung-hee resolveu esse problema pela via autoritária, impôs o horizonte longo pela força. A Índia resolveu parcialmente pela via da continuidade burocrática, algumas decisões estratégicas sobreviveram a alternâncias de governo porque foram institucionalizadas em estruturas com autonomia relativa. O Brasil ainda não encontrou sua resposta para essa questão e enquanto não encontrar, continuará produzindo diagnósticos precisos e resultados insuficientes.
A provocação final não tem resposta técnica. Tem resposta política: qual coalizão tem interesse em que o Brasil construa soberania tecnológica de longo prazo e qual tem interesse em que continue importando tecnologia cara e exportando talento barato?
Essa é a pergunta que o debate brasileiro sobre ciência raramente faz. Não por ignorância. Por desconforto com a resposta.
Dois Brasis, um horizonte
Cenário não é previsão. É instrumento analítico, uma forma de tornar visível o que permanece invisível quando olhamos apenas para o presente. O objetivo não é adivinhar o futuro. É revelar o que está em jogo nas decisões que o Brasil toma ou deixa de tomar hoje.
Os dois cenários a seguir compartilham o mesmo ponto de partida: o Brasil de 2025, com as instituições que tem, os problemas que tem, os recursos que tem. O que os diferencia não é sorte, nem liderança carismática, nem conjuntura econômica favorável. É uma única variável: a existência ou ausência de decisão doutrinária de tratar conhecimento como território soberano.
Horizonte: 2045. Vinte anos, o tempo mínimo para que decisões de soberania tecnológica produzam efeitos mensuráveis em escala sistêmica. Menos que isso é otimismo contábil. Mais que isso é especulação.
Cada cenário tem dois macro-movimentos: o que acontece com as ilhas de excelência existentes, e o que acontece com a base educacional que as alimenta. Os dois precisam ser lidos juntos, porque soberania tecnológica construída sem base é uma pirâmide que sustenta seu próprio colapso.
CENÁRIO 1: O BRASIL SEM DOUTRINA
O que continua
O Brasil de 2045, no cenário sem doutrina, não é um país em colapso. É um país que funciona, que exporta commodities com eficiência crescente, que mantém ilhas de excelência científica reconhecidas internacionalmente, que tem universidades públicas com programas de pós-graduação avaliados como de padrão global.
A Fiocruz continua produzindo vacinas e publicando pesquisa de alto impacto. A Embrapa continua desenvolvendo variedades agrícolas que alimentam o mundo. O ITA continua formando engenheiros que a Embraer, o mercado financeiro e as big techs globais disputam. A produção científica brasileira cresce em volume. Os indicadores de publicação melhoram.
O que muda ou, mais precisamente, o que não muda é a relação entre o que é produzido e o que fica.
O que se perde, silenciosamente
Sem o mecanismo de identificação precoce de pesquisa estratégica, o padrão da polilaminina se repete. Não com o mesmo ativo, com o próximo. E o seguinte. Cada ciclo de descoberta produz um novo caso onde a patente vence, o financiamento não chega a tempo, ou a empresa que capitaliza é estrangeira porque foi a primeira a perceber o valor do ativo que o sistema brasileiro não sinalizou como prioritário.
A biodiversidade amazônica continua sendo prospectada por empresas farmacêuticas, cosméticas e alimentícias de países com sistemas de vigilância de propriedade intelectual mais sofisticados que o Brasil. Os royalties, quando existem, são pagos para fora. O Brasil exporta o princípio ativo e importa o medicamento que o contém.
Sem o segundo trilho de avaliação que valorize impacto aplicado, o Qualis continua orientando pesquisadores em direção à publicação internacional. O pesquisador racional que poderia desenvolver tecnologia de substituição de importação em insumo crítico: semicondutores, fármacos de síntese complexa, componentes aeroespaciais calcula que sua carreira avança mais rapidamente publicando em revista A1 do que entregando resultado industrial. Ele não está errado. O sistema de incentivos não mente.
Sem vinculação estruturada entre formação de capital humano e demanda tecnológica nacional, os egressos do ITA e do IME continuam seguindo o caminho que a lógica dos incentivos indica: mercado financeiro nacional, ou mercado de trabalho internacional. A Embraer mantém sua capacidade porque construiu um ecossistema próprio de retenção. Mas a Embraer é uma exceção produzida por décadas de política industrial deliberadae sem a repetição dessa decisão doutrinária em outros setores, o modelo não se replica.
O que acontece com a base
A estagnação educacional que o PISA 2022 documenta não se resolve por inércia. Resolver desigualdade de aprendizado em escala, em um país com as assimetrias regionais do Brasil, com federalismo educacional fragmentado em 5.570 municípios, com déficit histórico de valorização docente, requer decisão política sustentada por décadas, não por ciclos eleitorais de quatro anos.
Sem essa decisão, o pool que alimenta as carreiras científicas e tecnológicas continua estreitando. O ITA continua selecionando os melhores 1%, mas esse 1% é extraído de um universo que encolhe em qualidade relativa. A desigualdade de origem não diminui: os candidatos com capacidade de competir por vagas nas instituições de excelência continuam sendo predominantemente oriundos de escolas particulares de centros urbanos.
O resultado não é catástrofe imediata. É erosão lenta da base que sustenta a ponta. Em 2045, as ilhas de excelência ainda existem, mas são menores, relativamente, do que deveriam ser dado o tamanho e o potencial do país. E o pipeline que as alimenta é cada vez mais estreito, cada vez mais dependente de um segmento demográfico que representa uma fração da população.
O Brasil de 2045 sem doutrina
É um país que produz conhecimento de qualidade para revistas internacionais e royalties para empresas estrangeiras. Que forma engenheiros de ponta para o mercado global e admite, com admiração resignada, que os melhores foram para o exterior. Que tem uma Fiocruz capaz de responder a pandemias globais e uma indústria farmacêutica nacional que importa 90% dos insumos farmacêuticos ativos que utiliza. Que tem Embrapa com 10.000 ativos de propriedade intelectual e uma taxa de transferência de tecnologia que não justifica o porte do acervo.
É o Brasil que o mundo reconhece como tendo imenso potencial. E que, a cada geração, reinicia o ciclo de potencial não realizado, não por falta de talento, mas por ausência da decisão que converte talento em soberania.
É, em essência, o Brasil de hoje, projetado vinte anos à frente com os mesmos padrões estruturais. Funcional. Competente em ilhas. Vassalo no sistêmico.
CENÁRIO 2: O BRASIL COM DOUTRINA
O ponto de bifurcação
O cenário com doutrina não começa com um grande plano. Começa com uma decisão small: o Estado brasileiro decide, formalmente, que pesquisa com potencial de soberania constitui território que ele tem obrigação de monitorar, proteger e capitalizar e cria os instrumentos mínimos para operacionalizar essa decisão com o que existe.
O Registro Nacional de Pesquisa Estratégica é criado por portaria conjunta MCTI e Fazenda. O INPI passa a tramitar em 90 dias, não em 18 anos, pedidos de patente vinculados ao registro. As taxas de manutenção de PI de pesquisa pública classificada como estratégica são cobertas por fundo setorial. O sistema Qualis-CAPES passa a incluir um segundo trilho com peso real para impacto aplicado. O programa Conhecimento Brasil é redesenhado para vincular atração de pesquisadores a gaps tecnológicos mapeados anualmente pela Finep.
Nada disso requer nova lei. Nada disso requer orçamento extraordinário. Requer apenas que as peças que já existem sejam organizadas por uma lógica que hoje não existe: a lógica de soberania.
O que muda em 10 anos
A primeira geração de efeitos é modesta e invisível para o noticiário. O que muda é a taxa de perda de ativos estratégicos, que começa a cair. Pesquisas como a da polilaminina passam a ter proteção automática desde o momento em que são identificadas como estratégicas. Não esperam 18 anos. A janela de exclusividade é usada, não consumida em burocracia.
O mapa de gaps tecnológicos, atualizado anualmente pela Finep com contribuição de Embrapa, Fiocruz, ITA, IME e indústria, começa a orientar editais de pesquisa, programas de retenção de talentos e contratos de vinculação. Pesquisadores retornam ao Brasil não para uma vaga genérica, mas para um problema específico com endereço, prazo e resultado esperado. Alguns ficam. Outros contribuem temporariamente e retornam ao exterior, mas o conhecimento foi transferido, o ativo foi criado.
O segundo trilho de avaliação começa a produzir o sinal de mercado que o Qualis sozinho não produz. Pesquisadores calculam que dedicar dois ou três anos ao desenvolvimento de tecnologia de substituição de importação não é suicídio de carreira, é alternativa legítima à publicação internacional, com reconhecimento institucional proporcional. Não é revolução. É reequilíbrio de incentivos.
O que muda em 20 anos
A segunda geração de efeitos é sistêmica. A decisão doutrinária de tratar conhecimento como território soberano começa a produzir externalidades positivas que se auto-reforçam, o que Meadows chamaria de feedback de reforço positivo numa estrutura de sistema que antes só tinha feedbacks de erosão.
A indústria farmacêutica nacional, orientada pelos gaps mapeados e pelos ativos de PI da Fiocruz disponibilizados via plataforma estruturada, começa a reduzir a dependência de insumos farmacêuticos ativos importados em áreas selecionadas. Não resolve o problema inteiro, mas o Brasil de 2045 não importa 90% do que importava em 2025 em determinados segmentos de alta criticidade sanitária.
A Embrapa, com um mecanismo que conecta seus ativos de PI a demandas industriais identificadas, começa a converter o acervo de 10.000 registros em contratos de licenciamento que geram receita reinvestida em pesquisa, o ciclo virtuoso que a Coreia do Sul construiu entre seus institutos de pesquisa e seus Chaebols a partir dos anos 1980.
O ITA e o IME, com contratos de vinculação que criam alternativa de carreira nacional para seus egressos, deixam de exportar a integralidade de seu capital humano de ponta. A fração que fica é pequena no início, mas é a fração que funda startups de base tecnológica, que integra equipes de P&D corporativo nacional, que forma a próxima geração de pesquisadores que não precisará emigrar para encontrar infraestrutura compatível com sua formação.
A base educacional, se tratada com a mesma seriedade doutrinária, começa a produzir seus efeitos no mesmo horizonte: 20 anos é o tempo de uma geração escolar. Uma criança que entra no primeiro ano com 6 anos em 2025 e encontra um sistema educacional que foi redesenhado com seriedade metodológica, formação docente, tempo pedagógico, avaliação de aprendizado orientada a resultado, termina o ensino médio em 2037 com proficiência básica real. Entra no ensino superior em 2038. Pode estar defendendo doutorado em instituição brasileira de excelência em 2045.
Não é utopia. É aritmética demográfica aplicada a uma decisão que começa hoje.
O Brasil de 2045 com doutrina
Não é um país sem problemas. Não é Coreia, não é Cingapura, não é Suécia. É um país que, ao longo de duas décadas, reduziu sistematicamente a taxa de perda de seus ativos estratégicos: de capital humano, de propriedade intelectual, de patrimônio biológico, de infraestrutura digital.
É um país que ainda exporta commodities, mas que também exporta tecnologia embedded nessas commodities, porque a Embrapa e a Embrapa do futuro foram capitalizadas para fazê-lo. Que ainda forma engenheiros que o mundo disputa, mas que tem uma fração crescente deles trabalhando em projetos brasileiros com infraestrutura e remuneração que tornam a permanência racionalmente competitiva.
É um país onde a Fiocruz não apenas responde a pandemias com vacinas para 150 países, mas onde a indústria nacional produz os insumos que suas vacinas requerem, porque a decisão doutrinária de 2025 criou o mecanismo que conectou o acervo de pesquisa da Fiocruz à demanda industrial que já existia mas não tinha o sinal de preço correto para se organizar.
É um país que, pela primeira vez em sua história, tem um sistema que transforma Santos Dumonts em ativos, não porque suprimiu a generosidade do inventor, mas porque construiu a arquitetura que permite que a generosidade individual não seja a única linha de defesa entre a descoberta e o royalty pago ao exterior.
A escolha que não parece uma escolha
O argumento deste artigo, do começo ao fim, é que o Brasil tem sistematicamente tratado como inevitabilidade aquilo que é, na verdade, escolha política.
A perda de talentos não é inevitável, é o resultado de um sistema de incentivos que nunca foi redesenhado para reter. A perda de ativos de PI não é inevitável, é o resultado de um sistema de proteção que nunca foi orientado para identificar antes de perder. O colapso silencioso da base educacional não é inevitável, é o resultado de décadas de políticas que nunca trataram educação como infraestrutura de soberania.
Santos Dumont não patenteou porque acreditava que a ciência era de todos. O Brasil de 2025 não precisa ser tão generoso quanto Santos Dumont, precisa apenas ser tão estratégico quanto a Coreia de 1982, que decidiu que não podia mais depender de transferência tecnológica externa e criou a arquitetura para desenvolver a própria.
A questão não é se o Brasil tem capacidade inventiva. Os blocos anteriores demonstraram que tem, na neurociência de Nicolelis, na agropecuária da Embrapa, na saúde pública da Fiocruz, na engenharia do ITA, na biodiversidade da Amazônia. A questão é se o Brasil vai, finalmente, construir o sistema que transforma essa capacidade em soberania.
Ou se vai continuar, por mais vinte anos, aplaudindo o chute inicial da Copa e deixando a FIFA cortar a transmissão em 29 segundos.
Abrahão Silva é estrategista político.
Lê sistemas de poder onde outros leem notícias.
