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NEW ERA: A fundação de uma nova ordem política nos Estados Unidos

Em uma atmosfera nefasta de poder, exceção e condicionamento imposta por Donald Trump

Abrahão Silva
Abrahão Silva
08 de fev. · 17 min de leitura
Trump e a nova ordem política americana.

Em uma atmosfera nefasta de poder, exceção e condicionamento imposta por Donald Trump

Os Estados Unidos já fizeram um gesto civilizatório raríssimo: elegeram o primeiro presidente negro para a cadeira mais importante do mundo.

E aí vem o choque que a história não deixa a gente suavizar.

Sob Barack Obama, a máquina de deportação operou em volume recorde. O ponto não é a existência de deportações em si. O ponto é o que isso revela sobre o Estado americano: ele consegue manter, ao mesmo tempo, o mito moral da “terra da liberdade” e a prática dura de selecionar quem pode ficar e quem deve sair. Esse duplo padrão não nasce com Trump. Trump apenas muda a função disso.

No Trump II, a deportação deixa de ser só política pública. Ela vira linguagem. Vira pedagogia social.

E é aqui que entra o método.

Quando Trump publica e depois apaga um vídeo que retrata Barack e Michelle Obama como macacos, ele não está “errando um post”. Ele está testando limite, deslocando o aceitável, medindo reação e calibrando até onde o sistema aguenta sem romper. Foi racismo explícito empacotado como provocação política, com reação pública incomum inclusive em setores republicanos, mas sem pedido real de desculpas, porque a intenção não era conciliar, era marcar território simbólico.

Imagem usada em postagem posteriormente removida, que recorre à desumanização racial como recurso simbólico.

O vídeo é uma política pública simbólica. Um instrumento de Estado por atmosfera.

E a atmosfera se completa pela estética do poder. No caso de Greg Bovino, o uso de um casaco nitidamente de inspiração nazista não foi um ruído de guarda-roupa. Foi mensagem. Foi teste. A peça funciona como linguagem política visual: intimida, provoca e mede o limite do tolerável. Não se trata de opinião pessoal nem de mau gosto; trata-se de provocação funcional para esgarçar a norma e observar até onde a sociedade aceita quando a ordem é invocada como causa superior.

Quando não há custo, o sinal cumpre seu papel: o limite recua. Aqui começa o miolo do nosso artigo. Porque isso está calcificando o eleitorado.

Quem detesta Trump é forçado a viver em estado de choque contínuo, indignação intermitente, fadiga moral, e no limite, desistência. Quem legitima Trump diz a frase que importa, nua e operacional:

“eu votei para isso”.

Não é sobre acreditar em fatos. É sobre pertencer ao lado que pode humilhar sem pagar preço.

O resultado, no chão da política, é geracional: você não está só ganhando uma eleição. Você está treinando uma população para aceitar exceção como rotina, polícia como identidade, e crueldade como prova de coragem.

E quando isso vira maioria tolerante, qualquer decisão extrema vira plausível. Não porque as pessoas ficaram burras. Porque elas foram treinadas para confundir força com normalidade.

É por esse portal que a PAX TRUMP entra no cotidiano: não como doutrina formal, mas como hábito social.

Da persuasão ao condicionamento

Para entender o que está em jogo hoje nos Estados Unidos, é preciso partir de um ponto empírico, não moral. A ciência política já mostrou, há quase um século, que eleições não são decididas apenas por argumentos racionais.

Nos estudos clássicos conduzidos por Paul Lazarsfeld, especialmente em The People’s Choice, a conclusão central foi clara: a mídia não cria opinião do nada. Ela reforça predisposições, organiza prioridades e estabiliza crenças que já existem no eleitor. O voto não nasce no jornal; ele é moldado no ambiente social, nos grupos de pertencimento e nas lealdades prévias.

Mas há um ponto decisivo que costuma ser esquecido quando esses estudos são citados.

Naquele período, o ambiente informacional era limitado, linear e mediado. Poucos veículos, mensagens relativamente estáveis e uma clara distinção entre informação, opinião e propaganda. Mesmo quem discordava do jornal ou do rádio conseguia identificar o conflito, comparar versões e manter algum distanciamento crítico. O eleitor podia rejeitar a mensagem sem romper com a realidade compartilhada.

Esse arranjo não existe mais.

O “hoje” não é apenas um tempo diferente. É uma nova era política, marcada pela consolidação do que chamo de Pax Trump. Um ambiente de poder em que política, comunicação, tecnologia e Estado deixam de operar separadamente e passam a funcionar como um sistema integrado de moldagem comportamental.

Esse cenário não nasce espontaneamente. Ele começa a se estruturar quando o debate público toma conhecimento, de forma inequívoca, de que comportamento eleitoral pode ser modelado em escala, não por convencimento racional, mas por estímulos psicológicos direcionados.

O escândalo da Cambridge Analytica, revelado a partir de 2016, mostrou que dados pessoais, traços de personalidade e vulnerabilidades emocionais estavam sendo usados para segmentar mensagens políticas com precisão cirúrgica, explorando medo, ressentimento, identidade e pertencimento. Não se tratava mais de propaganda, mas de condicionamento.

Naquele momento, ainda se tratava de um método controverso, investigado, contestado e tratado como desvio. Houve audiências, reportagens, pedidos de regulação e a sensação difusa de que aquilo havia “passado do limite”.

O que mudou desde então não foi a técnica. Foi o ambiente de poder.

A partir da consolidação do Trump II, esse tipo de operação deixa de ser visto como escândalo excepcional e passa a ser referência implícita de eficácia política. Não se fala mais em microdirecionamento psicológico como algo a ser evitado, mas como algo a ser absorvido pelo ecossistema. O método sai da periferia digital e se aproxima do centro do Estado. O que antes era terceirizado para empresas opacas passa a ser replicado por campanhas, influenciadores alinhados e comunicação oficial, em linguagem aberta, confrontacional e permanente.

Nesse contexto, o eleitor americano já não está exposto a um fluxo de persuasão tradicional. Ele está imerso em um ambiente deliberadamente saturado de estímulos contínuos, personalizados, emocionais e repetitivos, que operam por identificação e exclusão. A informação não chega como argumento a ser avaliado, mas como sinal de pertencimento: quem você é, de que lado está, quem deve ser temido, quem pode ser desumanizado.

Não se trata mais de convencer alguém de algo novo. Trata-se de blindar identidades já assumidas, reforçar lealdades e reduzir o custo psicológico da exceção. O conflito deixa de organizar ideias e passa a organizar tribos. Questionar deixa de ser exercício cívico e passa a ser risco social.

Esse é o “hoje”.

Não um acidente tecnológico, mas um ambiente político produzido, no qual o condicionamento substitui a persuasão e prepara o terreno para que o poder avance do discurso para o método.

Quando esse tipo de ambiente se consolida, seus efeitos não ficam restritos ao comportamento do eleitor. Eles começam a se manifestar nas instituições que tradicionalmente organizavam o debate público e mediavam o conflito político.

Movimentos internos de grandes veículos, portanto, não podem ser lidos isoladamente. As demissões e reestruturações no The Washington Post, por exemplo, têm causas econômicas e tecnológicas evidentes. Mas ocorrem dentro de um ambiente político específico: um ambiente em que atacar a imprensa deixou de ter custo político relevante e em que a sociedade foi treinada a tratar o enfraquecimento do mediador como algo normal, quase esperado.

Jeff Bezos e o Washington Post em um ambiente de reprecificação do custo político do jornalismo.

É aí que a figura de Jeff Bezos entra não como vilão ideológico, mas como termômetro do sistema. Agentes racionais testam limites quando o ambiente permite. Quando o custo reputacional de reduzir jornalismo, recalibrar linha editorial ou evitar confronto cai, esses movimentos passam a ser possíveis. Não porque alguém “mudou de valores”, mas porque o contexto já absorveu a mudança antes que ela se tornasse explícita.

O efeito agregado disso tudo é profundo. O eleitor não reage mais por indignação contínua, mas por alinhamento automático. Não avalia cada episódio isoladamente; decide se aquele ato reforça ou ameaça sua identidade política. A exceção deixa de chocar. A transgressão deixa de surpreender. O silêncio passa a operar como forma funcional de adaptação.

É isso que está sendo calcificado: não apenas preferências eleitorais, mas a tolerância coletiva ao deslocamento de limites. E quando esse endurecimento se consolida, o poder ganha espaço para avançar do discurso para o método, do gesto isolado para a política pública simbólica.

É esse movimento que o próximo bloco vai detalhar.

A fundação de uma nova ordem política

Até aqui, falamos de ambiente. A partir daqui, falamos de decisão.

No Trump II, o choque simbólico deixa de ser excesso retórico ou traço de personalidade e passa a cumprir função governamental. O que antes poderia ser tratado como “declaração polêmica” passa a operar como instrumento para organizar comportamento, testar limites e reconfigurar o aceitável. Não se trata de um evento isolado, mas de um padrão observável, repetido e cumulativo.

Esse deslocamento é importante porque muda a pergunta central. Não é mais “o que Trump quis dizer”, mas o que o sistema aprende cada vez que isso acontece.

A pedagogia do choque

O episódio do vídeo envolvendo Barack e Michelle Obama é exemplar justamente por isso. Não pelo conteúdo em si, mas pela sequência.

O vídeo é publicado. A reação é imediata. Há desconforto público, inclusive em setores republicanos que raramente rompem. Poucas horas depois, o material é retirado. Mas o ponto decisivo vem a seguir: não há pedido de desculpas, não há reconhecimento de erro moral, não há recuo discursivo real.

O enquadramento oficial é outro e tem porta-vozes identificáveis. Karoline Leavitt, ao responder a episódios de repercussão pública, recorre reiteradamente à ideia de “exagero”, “falsa indignação” e “prioridades mais importantes”, deslocando o debate do conteúdo para a suposta histeria de quem reage.

Jason Miller, principal arquiteto da engrenagem comunicacional, reforça essa lógica ao tratar críticas como distração fabricada pelos “mesmos de sempre”, recusando qualquer reconhecimento de erro moral.

Jason Miller e Karoline Leavitt: Operadores centrais do enquadramento comunicacional.

A mensagem transmitida não é que o gesto foi errado. É que ele só se torna um problema quando o custo político sobe demais. O limite não é ético. É funcional.

Isso ensina algo muito específico à sociedade. O choque é aceitável enquanto não produz ruptura. E, quando produz, basta um recuo tático: retirar o conteúdo, mudar o foco, atacar o mensageiro para que o sistema siga adiante, com o limite já deslocado um pouco mais.

Por que isso só funciona porque é orquestrado

Nada disso se sustenta se executado apenas pelo presidente. O que dá coerência e continuidade a essa dinâmica é a coordenação comunicacional permanente, operada por uma engrenagem que antecede, acompanha e enquadra cada episódio. Não se trata de responder a crises, mas de administrá-las.

A função dessa engrenagem não é explicar decisões nem pacificar conflitos. É reclassificar a crítica. O padrão se repete: críticas não são enfrentadas no mérito, mas deslocadas de plano. Viram histeria, sabotagem, exagero, teatro moral. Quando porta-vozes afirmam que há “coisas mais importantes com que se indignar”, não estão minimizando o episódio. Estão hierarquizando a moralidade, ensinando o que merece atenção pública e o que pode ser descartado como ruído.

Esse enquadramento produz um efeito cumulativo. Quem critica passa a parecer deslocado. Quem se indigna soa fora do tempo. Quem silencia se adapta. A lógica não é convencer adversários, mas organizar reações previsíveis, reduzir custo político e deslocar, pouco a pouco, o limite do aceitável.

É assim que episódios isolados deixam de ser ruído e passam a funcionar como fundação de ordem.

Sinalização de poder como política

É nesse ponto que a política pública simbólica se consolida. O Estado passa a governar não apenas por leis e decretos, mas por sinais reiterados. Linguagem, estética, tom e timing passam a importar tanto quanto decisões formais.

O caso de Greg Bovino, com o uso de vestimenta nitidamente com inspiração nazista, se insere exatamente aí. Não é detalhe estético nem opinião pessoal. É linguagem política visual, usada para intimidar, provocar e medir tolerância social. Quando não há consequência institucional relevante, o sistema registra o dado: o limite recuou.

Isso não significa que cada gesto seja calculado em detalhes. Significa que o ambiente recompensa quem empurra a fronteira. E ambientes ensinam mais rápido do que discursos.

Gregory Bovino ao centro usando casaco com estética autoritária de inspiração nazista, cercada por agentes mascarados.

O papel dos recuos

É importante entender que os recuos não enfraquecem o método. Eles o refinam.

Ao retirar o vídeo após pressão, o governo evita ruptura, mantém a base mobilizada e normaliza o gesto inicial. O aprendizado institucional é simples: o choque funciona, desde que calibrado. A consequência é previsível. Para produzir o mesmo efeito, o próximo movimento precisa ir um pouco além.

É assim que o método escala. Não por radicalização súbita, mas por deslocamento progressivo de limites, sempre testados, raramente revertidos.

Por que isso é política pública

Porque produz efeitos concretos e mensuráveis:

  • reduz o custo da coerção simbólica
  • aumenta a autocensura social
  • transforma silêncio em adaptação
  • desgasta a oposição por fadiga moral

Quando a sociedade passa a operar como se certos limites já não existissem, o poder não precisa mais formalmente removê-los. A política pública simbólica cumpre seu papel antes da política formal.

O que está em jogo aqui não é comunicação agressiva. É engenharia de comportamento em escala estatal. E é isso que explica por que o próximo bloco não trata mais de discurso, mas de normalização institucional.

Banalização do estado de exceção

A questão que nos orienta aqui é simples e dura:

o que muda quando a exceção deixa de ser exceção e passa a funcionar como rotina administrativa?

A resposta surge quando a nova ordem abandona o plano simbólico e se instala na engrenagem cotidiana do Estado. No Trump II, o que se observa não é uma ruptura espetacular nem um golpe clássico. É um processo contínuo de purgas silenciosas, reaparelhamento funcional e rehierarquização interna.

Quadros considerados pouco confiáveis são deslocados ou neutralizados, cadeias de comando são reorganizadas e áreas sensíveis passam a operar segundo um critério central: lealdade operacional à nova ordem, não apenas aderência formal à lei. A exceção deixa de ser invocada como resposta a emergências e passa a ser critério permanente de gestão.

Nesse rearranjo, um órgão se destaca não apenas pelo poder formal, mas pelo papel simbólico que passa a exercer: o U.S. Immigration and Customs Enforcement. O ICE deixa de ser uma agência entre outras e se converte em eixo máximo da autoridade visível.

A imigração deixa de ser tratada como política pública complexa e passa a funcionar como palco privilegiado da demonstração de força do Estado. Cada operação, cada imagem, cada ação pública comunica uma lição: há um poder que age rápido, de forma opaca e com baixa disposição para prestação de contas.

É nesse ponto que o detalhe operacional ganha densidade política. Agentes do ICE passam a atuar com o rosto coberto, usando balaclavas. Isso não é neutro nem acidental. Quando agentes do Estado ocultam deliberadamente sua identidade, o Estado deixa de se apresentar como instituição responsável e passa a operar como força anônima. A balaclava dissolve a responsabilidade individual, amplia a assimetria entre autoridade e cidadão e produz medo difuso. Mais do que eficiência, trata-se de linguagem de poder. O procedimento comunica: o Estado vê, mas não é visto; age, mas não responde.

Há ainda um segundo elemento decisivo: o ethos que se projeta nessa atuação. Reportagens da The Atlantic apontam afinidades simbólicas, estéticas e culturais entre ambientes de recrutamento informal, linguagem de confronto e a iconografia associada a grupos como os Proud Boys.

Trata-se de um grupo neonazista e supremacista branco, com histórico documentado de violência política, intimidação organizada, culto à força e rejeição explícita a valores democráticos. A retórica de “orgulho ocidental” sempre funcionou como código para tornar socialmente aceitável uma ideologia autoritária, racializada e orientada à legitimação da violência como método político.

O uso de balaclavas integra o procedimento operacional e reforça a assimetria entre autoridade estatal e cidadão.

O ponto aqui não é afirmar filiação formal entre agentes do Estado e esses grupos. O ponto é mais profundo e mais grave: continuidade de imaginário. Quando o Estado passa a operar com anonimato, intimidação e demonstração de força como virtudes administrativas, ele deixa de apenas tolerar esse ecossistema ideológico e passa a internalizá-lo. O que antes era marginal passa a ser funcional.

Essa absorção vem acompanhada de uma ressignificação prática da tradição constitucional americana. A Segunda Emenda, historicamente associada à ideia de cidadão armado como limite ao abuso do poder estatal, é invertida. Deixa de ser freio simbólico e passa a operar como licença cultural para a força alinhada ao Estado. O direito às armas deixa de funcionar como proteção contra a tirania e passa a integrar uma estética de poder que distingue quem reforça a ordem de quem a questiona.

O resultado é um paradoxo revelador. Jornalistas, ativistas e opositores políticos podem ser enquadrados, presos ou silenciados sob justificativas administrativas, de segurança ou de ordem pública quando desafiam o regime. Já os abusos cometidos em nome da ordem, mesmo quando tensionam liberdades civis básicas, não são tratados como violação constitucional, mas como defesa dela. A exceção deixa de ser ameaça à democracia e passa a ser apresentada como sua salvaguarda.

É nesse ponto que o arcabouço da Pax Trump se revela como ordenador, não episódico. A nova ordem não rompe com a legalidade de forma aberta; ela a reorganiza. Direitos deixam de ser universais e passam a ser condicionais. Valem plenamente para quem reforça a ordem; tornam-se negociáveis para quem a contesta. O Estado não abandona a Constituição. Ele a reinterpreta em torno da lealdade.

Quando a exceção vira rotina burocrática, três efeitos se consolidam. Primeiro, a legalidade deixa de ser horizonte normativo e passa a ser obstáculo administrável. Segundo, a responsabilidade se dilui na cadeia operacional, dificultando fiscalização e contestação. Terceiro, a sociedade aprende que o poder age e que questioná-lo tem custo crescente.

É assim que a nova ordem se estabiliza. Não por decreto autoritário, mas pela normalização administrativa do excepcional. O que ontem exigiria escândalo hoje passa em silêncio. E quando o silêncio se torna padrão, a exceção já venceu.

O ambiente nefasto

Quando a exceção se torna rotina administrativa, o impacto não se limita ao Estado. Ele reorganiza o campo eleitoral. A nova ordem não apenas governa. Ela redefine o que é politicamente viável disputar.

O primeiro efeito visível é a compressão do debate. A política deixa de ser arena de alternativas substantivas e passa a funcionar como disputa de intensidade. Quem fala mais duro. Quem promete agir mais rápido. Quem sinaliza menos limites. Nesse ambiente, posições que não incorporam a lógica da força passam a parecer fracas, ingênuas ou desconectadas da realidade.

É nesse ponto que o Partido Democrata entra num dilema estrutural. A oposição passa a enfrentar uma escolha difícil. Ou tenta disputar o centro simbólico ocupado por Trump, adotando parte de sua gramática. Ou aceita o risco de marginalização discursiva. Não se trata de conversão ideológica automática, mas de adaptação estratégica. O campo foi deslocado. Permanecer onde ele estava significa falar sozinho.

Pesquisas recentes indicam algo que antes parecia improvável. A distância ideológica percebida entre Democratas e Republicanos diminui em temas centrais quando filtrada pela lógica do medo, da ordem e da segurança. O eleitor já não distingue projetos pelo conteúdo, mas pela disposição de agir. O critério deixa de ser o que você defende e passa a ser o que você é capaz de fazer.

Esse deslocamento tem efeito direto sobre lideranças dissonantes. Políticos que resistem à gramática da força, tanto à direita quanto à esquerda, perdem tração. Têm menos espaço na mídia, menor alcance algorítmico e menor capacidade de mobilização. Não porque estejam errados, mas porque o ambiente já não recompensa esse tipo de discurso. A nova ordem não precisa censurá-los formalmente. Ela os torna irrelevantes.

O resultado é um sistema eleitoral progressivamente conformado, com efeito nefasto sobre a qualidade da democracia. As bordas ideológicas não desaparecem, mas o centro se estreita. A disputa passa a ocorrer dentro de um espectro mais rígido, no qual a diferença entre os partidos é menos programática e mais performática. A política vira competição de sinais, não de projetos.

Isso ajuda a explicar por que episódios extremos deixam de produzir realinhamentos eleitorais significativos. O choque já foi absorvido. O eleitor não reage mais perguntando se isso é aceitável, mas se isso o protege. A lógica da Pax Trump não apenas molda o governo em exercício. Ela educa o eleitor para aceitar menos alternativas.

No médio prazo, o efeito é ainda mais profundo. Novas lideranças emergem já formadas dentro desse ambiente. Aprendem desde cedo que moderação custa caro, que o conflito mobiliza mais do que o argumento e que a política eficaz é a que demonstra capacidade de impor, não de convencer. O sistema passa a se reproduzir por seleção adversa. Sobrevive quem se adapta à nova ordem.

O risco aqui não é a vitória permanente de um partido, mas a homogeneização do repertório político. Quando até a oposição passa a operar sob a gramática da força, a democracia não colapsa de imediato. Ela empobrece, perde elasticidade e passa a funcionar com menos válvulas de escape.

É esse empobrecimento lento, silencioso e nefasto que fecha o ciclo iniciado no campo simbólico e consolidado na burocracia. A nova ordem não precisa eliminar eleições. Basta reduzir o espaço real de escolha. E quando escolher deixa de ser substantivo, votar passa a ser apenas ratificar o ambiente que já se impôs.

Horizonte de conflito

Até aqui, o foco esteve no presente. No funcionamento do Estado, no reordenamento institucional e no impacto imediato sobre o jogo eleitoral. O passo seguinte é mais inquietante, porque projeta essa lógica no tempo. O que esse arranjo produz nas próximas gerações.

O efeito mais profundo da Pax Trump não é eleitoral. É formativo. Uma geração inteira passa a ser socializada em um ambiente no qual o poder não se legitima pelo convencimento, mas pela imposição. Onde o conflito não é falha do sistema, mas seu motor. Onde o Estado aparece menos como mediador e mais como força que escolhe, pune e protege.

Esse aprendizado não acontece por doutrinação explícita. Ele acontece por repetição. Por rotina. Por observação cotidiana. Jovens crescem vendo que abusos não geram consequência quando alinhados à ordem. Que o silêncio compensa mais do que a crítica. Que a exceção não é corrigida, é absorvida. Esse tipo de ambiente molda expectativa, não opinião.

O resultado é um deslocamento ontológico. A política deixa de ser percebida como espaço de negociação e passa a ser entendida como arena de sobrevivência simbólica. Quem pertence é protegido. Quem contesta é suspeito. A lógica binária se infiltra na vida social, nas relações familiares, no ambiente de trabalho, nas escolas. Não como ideologia explícita, mas como senso comum operacional.

É aqui que o risco de fratura civil deixa de ser hipótese abstrata. Não porque haja desejo consciente de guerra interna, mas porque os mecanismos de contenção simbólica se enfraquecem. Quando a política perde elasticidade e o conflito deixa de ter canais institucionais eficazes, ele migra. Passa do debate para o confronto social. Do argumento para a força difusa.

Donald Trump remodelando o cidadão americano.

Nesse cenário, até mesmo a ideia de união nacional se esvazia. O país continua existindo formalmente, mas passa a operar como conjunto de identidades hostis coexistindo sob tensão permanente. O adversário político deixa de ser alguém com quem se disputa poder e passa a ser alguém cuja existência ameaça o próprio modo de vida. Esse é o ponto em que a política deixa de organizar diferenças e passa a amplificá-las.

O mais grave é que esse processo tende a se autoalimentar. Quanto mais o ambiente se torna hostil, mais a lógica da força parece necessária. Quanto mais necessária ela parece, mais aceitável se torna. O ciclo se fecha sem precisar de ruptura formal. Não há golpe. Não há suspensão explícita da democracia. Há adaptação progressiva ao conflito.

É por isso que o que está em curso não pode ser lido apenas como radicalização retórica, excesso de liderança ou reação cultural. Trata-se da fundação de uma nova ordem política, sustentada menos por consenso e mais por condicionamento. Uma ordem que não promete estabilidade duradoura, mas convivência tensa sob vigilância constante.

A Pax Trump não aponta para paz. Aponta para contenção permanente, interna e externa. Para um mundo em que previsibilidade vira privilégio, não direito. Em que a exceção deixa de chocar e passa a organizar. E em que o custo maior não é a perda de uma eleição, mas a perda da capacidade coletiva de imaginar alternativas.